quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

herói do próximo épico

sou um homem feito
de utopia e fumaça
na primazia sem graça
da noite vazia

sou feito de ferro
e pele preta na praça,
sou efeito não causa
da selvageria

sou
a pele arregaçada
não a chibata,
o berro,
não a mordaça

sou um homem feito de utopia
e água, que se esvazia
ou se evapora
a cada dia na diáspora
inventando metáfora
pra explicar a tirania
da classe sobre a classe
da pele sobre a pele
da mais-valia.

sou um homem feito de fumaça
e tristeza,
enquanto uma evapora
outra enfria
se solidifica nas entranhas e me mata
como se substância venenosa
na tristeza havia.

sou homem de ferro, de berro
utopia e fumaça
que quer ser gigante na hora da morte
e desmentir a intransigente
brevidade da vida.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Oxúm e Badé in realismo fantástico

Antes que eu me perca
novamente
na vicissitude dos meus passos
e no hermetismo
dos teus olhos.

preciso dizer-te, meu bem
que nestes últimos dias
e nos outros, anteriores,
o ar me coube,
a água acariciou meu corpo,
o fogo de nós dois
não me ardeu.

deitamos na terra mais fértil do mundo
e nos amamos,
quem sabe mais tarde daremos frutos,
quem sabe não.

seja assim,
esta arte perigosa
mas vital.
este vínculo imperioso
mas legítimo.

esta verve que me toma
e me devolve.
nos encontros mais poderosos
do mundo.

como o choque da correnteza
dos teus rios
com as pedras ferventes dos
meus vulcões.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

poema de amor em Pilares

A chuva surra os telhados
as ruas sofrem em silêncio
o ar entra pela janela e para
a noite permanece incômoda
sou o fantasma mais lento da casa
avanço cômodo a cômodo porquê?
ouço as baratas no esgoto e me alegro
bom saber que não estou sozinho.
As sirenes do morro do urubu uivam
são meras mensageiras da tragédia
fecho os olhos e com pouco esforço
vejo a pele e a classe em desespero
ah, minha alma sebosa e mesquinha,
meu coração grande mas vazio,
diante da concretude das coisas
me dou folgas ao chorar por amor
me jogo então,  ao esmeril da autocrítica
aos fatos duros e irrefutáveis do mundo
perdoe a mim, mulher feita de ouro
mas seguirei sem o furor da despedida
pois se toda lágrima de dor
é pobre e preta
todo poema de amor vira
pequeno-burguês

sábado, 10 de dezembro de 2016

poema precoce

a noite segue as condições do ar
úmido, quente
como os abraços que
me prendem
dentro dela.

e eu
circunspecto ser de carne,
de ideias rasas
em palavras raras
jogadas ao nada,
no vazio da máquina
do mundo
me deito.

portas se entreabrem
sozinhas
nesta sala,
almas se entreolham assustadas
e você me falta.

me desiludido das leituras
concretistas
e do concreto dessa selva
que mata.

se eu pudesse
mataria as duas classes
que lutam entre si
e me levarão pra longe
matando a nós dois,

se pudesse
mataria as almas que
se entreolham e
esperam uma atitude que seja
de mim
no intuito de trazê-la de volta.

mas sou incapaz de vencer sozinho
estas pelejas.

por isso eu, rebelde,
fruto do ódio,
do barraco de pau
e da arueira,
me resigno,
lamentoso e surpreendido,
me deixo levar sem me importar
com a data de validade
dos amores deste trimestre,
que nascem e morrem
com e como as rosas roxas
da tua aura.

no mais não penso.

o clarão se anuncia lentamente
sobre a serra,
a noite finda condicionada pelo ar
frio, seco
como os beijos
que se perdem
no vazio dos poemas.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

treze de outubro

Há uma fronteira final
depois dos vinte e cinco.
uma égide imaginária
que defende os meninos
dos homens que eles se tornaram,
cheios de vícios e
parcos amores e
interesses mesquinhos.
na madrugada que separa
os vinte e poucos dos
vinte e tantos,
os sonhos perdem o sentido,
as bebidas o poder de transformar,
as manhãs o sabor.
uma flor se joga ao vento
já sem perfume
sem nome
num jardim moribundo
contando os dias
para morrer.

sábado, 8 de outubro de 2016

por que todo amor vale a pena?

os belos porque florescem
e deixam jardins de memórias
que a vida não deixa morrer,

os feios porque embotam
e se entranham, se embebem
em melodia
e se metamorfoseiam,

como borboleta,

em leves e aprazíveis
sambas tristes.

este não é mais um poema de amor

os versos que transbordam em mim
não falam de olhos que quase
se tocam ao se ver,
nem de sorrisos frouxos
que saltam um
por cima do outro.
não falam das noites em claro
na volúpia dos encontros,
ou na ânsia compartilhada
de tê-los.

este poema
de versos tão curtos,
tem entrelinhas que desarrolam
e se estendem
entre dois mares
que se acabam 
na terra seca
dos desencontros.

Este não é mais um poema de amor
que escrevo com a minha pele
na tua.
não é mais um poema de amor
que cantamos bêbados pela rua,

este não é mais um poema de amor
porque não te amo mais. não!
não somos mais um poema de amor
porque nossos versos
escritos a seco
em nossas peles escuras
doem demais.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

para um amor sem vergonha

eu tenho um amor
que não se chama amor.
um descuido que mora
nos olhares sedentos,
e nos pensamentos
indecentes
da madrugada.

que rejeita a ternura,
os calafrios e palpitações,
que prefere o calor
que se alastra
nas calças
quando a vejo.

eu tenho um amor
que não vale um carinho,
que não vale o afago
que um poema faz
n'alma.

é um amor vagabundo,
bagaceiro, de pelos pubianos
que se enroscam,
de seios que se tocam
e se desprezam depois
indo embora
antes do outro acordar.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Ibejis

atravesso os dias cinzas e o atlântico
feito flecha,
busco o sol e o chão vermelho
dos meus ancestrais.

tanto tempo faz,
quanto preto jaz.
do meu povo só me restam os dramas,
os carmas,
os sambas tristes,
e os orixás.

no morro moramos
nos sonhos
descalços dos pretos pequenos,
que escapam do doze
driblando o veneno,
que sabem lá dentro
que todo preto poeta
é um gênio,

da bola, da música,
ou da caneta...
quantos gênios
se esquivam da escopeta
e morrem no vestibular?

Ibejis,
gênios pretos.
demônios
que a igreja condenou,
a criança  que a escola abortou,
magia que a ciência calou.
o grito amigável no escuro
que me guiou.

que Oxalá ilumine e faça paz
aos geniozinhos, pretos ricos,
de pés pequenos descalços
que me fazem feliz.

Omi Beijada! Bejiróó!
farami só ibejis!

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Toda manhã

Sinto-me esmagado.
é natural sob este céu
que se desfaz e
despenca em nossas cabeças.
me levanto, faz 10 graus,
às 6 da manhã
cafeteiras chiam,
casacos são vestidos,
motores a gás ronronam
com preguiça,
mendigos tremem em seus papelões.

na condução todos apinhados,
calados, limpos e conformados,
todos são parafusos
nas engrenagens do mundo neoliberal.
todos carregam celulares,
notebooks, jornais,
todos carregam o mundo,
nos bolsos, nas mãos,
nas costas.

todos se entreolham
solitários na companhia da multidão
todos pedem licença, obrigado, socorro.
ninguém responde.
são verdades jogadas
no vazio do silêncio.

subo as escadas do metrô
já cansado, ofegante,
desnorteado, são 7 horas.
sinto o peso do imperialismo em minhas costas.
aqui e no Oriente Médio
primaveras vem e vão
feitas de flores e rebeldia,
jornadas de junho, julho e agosto
continuam a ser cumpridas,
mas novos outubros nunca vêm.
pessoas nascem e morrem,
nada se eterniza,
burocratas praticam burocracia.
presidentes sofrem golpes,
contragolpeiam,
jebs, diretos, cruzados,
que atingem o povo em cheio.
e eu continuo a suportar Wall Street
escadas do metrô da cinelândia acima.

até que no vazio do som dos carros,
da chuva que cai sombria e fina,
dos pés pisoteando as poças d'água
a voz espremida entre os acordes anuncia
que o sol há de brilhar mais uma vez.

paro atônito no Passeio Público
bucólico, frio,
a vida escorre pelos bueiros,
pombos se escondem nas marquises.

vejo de fato o sol brilhar novamente,
não no céu utópico, distante,
mas nos olhos de todos
que param o trânsito,
rompem o pacto,
bandeiras vermelhas nos mastros.

ainda me sinto esmagado,
mas já não me é natural,
o céu é leve, o ar é novo,
lá vem outubro
vermelho e pleno.