domingo, 24 de julho de 2016

Soneto do medo

há um monstro morando em meu coração,
que me desarranja por inteiro,
que conhece aos meus íntimos anseios
e me persegue implacável e com paixão.

sem razão vem à tona e me nauseia, 
me fustiga, me embota, me extasia,
me fazendo recear a companhia,
e me chantageando com a solidão.

fujo tanto de ser um poeta contrito
vivo  num parco amor fugidiço
regente interino do meu coração.

e tudo por força do odor repulsivo,
cônjuge da dor em meu peito ferido,
impunimente a roubar-me a volição.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Nós sequestramos a poesia!

sarjetas imundas:
crianças e sacos de lixo
na calçada,
lâmpadas queimadas.
no sereno frio
alguém sucumbe,

no outro lado da rua
outro olha da janela,
não vê nada.
não enxerga o ser humano
que morre,

do auge do glamour
do whisky, e da cocaína,
da boemia, da poesia,
que ignora a gente
como quem salta
sobre as poças de urina,
das pessoas urinadas
de frio, no pungente
Centro Histórico do Rio,
às três e meia da manhã.

poetas viciados,
prostituídos,
imorais e desgraçados,
alheios ao seu povo
nessa riqueza fugaz

não foram poetas jamais!

poetas
só nascem no seio do povo,
e morrem na morte do outro,

e na dor,
na culpa,
na falta,
na inutilidade
dos versos
frente a menina
que fraqueja,
arqueja,
se dobra,
e morre
aos catorze,

sem maca,
sem pílula,
sem nome nos jornais,
na lista dos hospitais,
cujo o estoque
tem em falta
corações.

não seria eu poeta
se não pudesse escrever

sobre a vida,
a sobrevida,
a subvida mal vivida,
e sobre a morte
corriqueira
do meu povo.
retinto e faminto,
indistinto nos braços das viúvas,
ou das solteiras, mães em pranto
na próxima chacina.

mulheres, senhoras, meninas,
que compram flores
para o feriado de finados,
e arrastam a vida
sabendo que a perdem.

Poetas
escravos do consumo,
da fraqueza da multidão,
do que adestra o coração,
da ração cotidiana
de entretenimento
em detrimento
da arte,

não são poetas mais!

declaro aqui, agora,
sequestrada a poesia!
apropriada,
expropriada pelo povo,

retinto
mas sem cor
nas paginas da história,

faminto
de amor
mesmo cercado de glórias,

indistinto pra rima fria
dos fidalgos
que monopolizaram a beleza
a caminho da luxúria.

a rima agora é preta
é parda, é feia,
perneta e banguela.

a métrica corre pelas ruas
descalça, nua, suja,
porém digna de parecer real.

volto então pelas ladrilhas
confiante, de mãos pensas,
passos firmes no pungente
Centro Histórico,
sabendo que tenho só uma história para contar.
a sua!

domingo, 17 de julho de 2016

Poetisa

Tu és um pássaro revolto
preso numa gaiola de papel,

que canta tão belo
que ninguém pode ouvir,
que voa tão alto
que ninguém pode ver.

teu talento,
monstruosidade
tão grande
que choca
como o cano de um revolver
engatilhado
no meio dos olhos.

e ilude a rotina
cegando o marasmo.

tu és, menina,
um pássaro triste
preso no próprio quintal,

que quer ser flor
sendo beija-flor,
que quer raiz
tendo asas verdes,

em minha inveja
gostosa de sentir de ti,
posso ouvir o dilacerar
dos corações
no ar parado
dos pontos de ônibus
inundados por teus versos.

amotinando a multidão,
iludindo a polícia.
pois só assim
novos poetas emergem.

quebrando o hábito!
que mais dizer?

tu és, poetisa,
um pássaro lindo
guardado no escuro.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Pássaro triste

eu te amo, mas não me amo.
não me amo para te amar
mais que te amo,
e suscitar em ti
as bonitas coisas do amor.

eu te amo sim,
mas não posso me amar.
sou infiel, ausente,
displicente,
forjo fracassos
por diversão.

estou decadente,

a tristeza cortou
minhas asas,
me impediu de voar,
mas fez do meu canto
o melhor para você,
meu amor.

sei que logo estarei velho
nas mesas de jogos de azar,
com cigarros me matando
entre os dedos,

sozinho, rusguento
e moribundo.

e só me restará
a certeza de que te amei,
e sofri, e sorri, e chorei,
e fui o pior dos teus
melhores amigos,
e te fiz provar
das piores bebidas,
e do gosto amargo
da solidão.

mas no dia em que você voar
deixe uma pena em meu ninho,
para que tu vivas para sempre
no meu coração.

sábado, 9 de julho de 2016

O amor é um cão dos diabos

é como se não pudesse
e se pudesse não tentasse,
mas pra todas depois de ti
meu coração encrudesce,
e é como se nosso caminho
eu outra vez palmilhasse,

e ao examinar onde nos perdemos
me perdesse outra vez nas respostas,
atravessadas, mal dadas e sujas,
nas minhas mentiras, nas suas,
nas nossas piores apostas.

agora o mundo se abre
e se mostra pra mim como um sonho,
o simulacro mudo de um riso
ecoando por acres e acres
ao lembrar teu rosto risonho.

a duras penas me recomponho
e me ponho a fitar o inverno,
usarei de todo artifício
pra demolir em mim o edifício
erguido pela fábula do amor eterno.

se entre outras pernas te mato
na solidão eu não te renego,
te invoco em conhaques e cigarros
e aquele velho roto eu não nego,
teu folheto avisou mas sou cego,
é mesmo o amor um cão dos diabos.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Baía de Guanabara

Ao meio-dia as máquinas de demolição
despejam sua fúria nas paredes,
mas a favela é mais que tijolos e resiste,
o braço rebelde arremessa pau e pedra
mas a máquina do mundo esmaga o povo.

o impacto que estremece o chão
se propaga no vácuo das coisas
que de repente deixaram de existir,
pessoas pulam fezes e desabrigados
no vai e vem sem sentido do mundo.

na franqueza dos muros poetas gritam
e no tráfego lento do rio de aço
da linha vermelha os olhos fitam,
mas não podem ouvir a juventude que berra.
parece que o mundo está em silencio.

no horizonte guindastes dançantes decretam
erguimentos que se opõem às águas da baía
matando novamente os cadáveres que boiam
no melancólico esquecimento à sombra da cidade,
contradições da capital sórdida e aprazível.

mendigos disputam pessoas e os restos do McDonalds,
vira-latas disputam mendigos e sua bondade irrisória,
enquanto estrangeiros disputam o futuro do nosso país,
todos se misturam na bucólica Praça Mauá que mata poetas.
e quanto mais compreendem o mundo, mais morrem.

não conseguem mais escrever versos suaves,
já não sabem rimar o mar com sua gente
pois o mar que se tem é a Baía de Guanabara
onde os cadáveres e barcos a vela disputam
as medalhas de ouro de Olímpia.

na outra margem a Maré então resiste
a revelia do brasisleiro médio, sujeito inventado
para ignorar o impacto dos braços de aço
na vida da gente, e ignorar os berros dos muros
sufocados pelas buzinas na lentidão da Linha Vermelha.