segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Toda manhã

Sinto-me esmagado.
é natural sob este céu
que se desfaz e
despenca em nossas cabeças.
me levanto, faz 10 graus,
às 6 da manhã
cafeteiras chiam,
casacos são vestidos,
motores a gás ronronam
com preguiça,
mendigos tremem em seus papelões.

na condução todos apinhados,
calados, limpos e conformados,
todos são parafusos
nas engrenagens do mundo neoliberal.
todos carregam celulares,
notebooks, jornais,
todos carregam o mundo,
nos bolsos, nas mãos,
nas costas.

todos se entreolham
solitários na companhia da multidão
todos pedem licença, obrigado, socorro.
ninguém responde.
são verdades jogadas
no vazio do silêncio.

subo as escadas do metrô
já cansado, ofegante,
desnorteado, são 7 horas.
sinto o peso do imperialismo em minhas costas.
aqui e no Oriente Médio
primaveras vem e vão
feitas de flores e rebeldia,
jornadas de junho, julho e agosto
continuam a ser cumpridas,
mas novos outubros nunca vêm.
pessoas nascem e morrem,
nada se eterniza,
burocratas praticam burocracia.
presidentes sofrem golpes,
contragolpeiam,
jebs, diretos, cruzados,
que atingem o povo em cheio.
e eu continuo a suportar Wall Street
escadas do metrô da cinelândia acima.

até que no vazio do som dos carros,
da chuva que cai sombria e fina,
dos pés pisoteando as poças d'água
a voz espremida entre os acordes anuncia
que o sol há de brilhar mais uma vez.

paro atônito no Passeio Público
bucólico, frio,
a vida escorre pelos bueiros,
pombos se escondem nas marquises.

vejo de fato o sol brilhar novamente,
não no céu utópico, distante,
mas nos olhos de todos
que param o trânsito,
rompem o pacto,
bandeiras vermelhas nos mastros.

ainda me sinto esmagado,
mas já não me é natural,
o céu é leve, o ar é novo,
lá vem outubro
vermelho e pleno.

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