quinta-feira, 21 de julho de 2016

Nós sequestramos a poesia!

sarjetas imundas:
crianças e sacos de lixo
na calçada,
lâmpadas queimadas.
no sereno frio
alguém sucumbe,

no outro lado da rua
outro olha da janela,
não vê nada.
não enxerga o ser humano
que morre,

do auge do glamour
do whisky, e da cocaína,
da boemia, da poesia,
que ignora a gente
como quem salta
sobre as poças de urina,
das pessoas urinadas
de frio, no pungente
Centro Histórico do Rio,
às três e meia da manhã.

poetas viciados,
prostituídos,
imorais e desgraçados,
alheios ao seu povo
nessa riqueza fugaz

não foram poetas jamais!

poetas
só nascem no seio do povo,
e morrem na morte do outro,

e na dor,
na culpa,
na falta,
na inutilidade
dos versos
frente a menina
que fraqueja,
arqueja,
se dobra,
e morre
aos catorze,

sem maca,
sem pílula,
sem nome nos jornais,
na lista dos hospitais,
cujo o estoque
tem em falta
corações.

não seria eu poeta
se não pudesse escrever

sobre a vida,
a sobrevida,
a subvida mal vivida,
e sobre a morte
corriqueira
do meu povo.
retinto e faminto,
indistinto nos braços das viúvas,
ou das solteiras, mães em pranto
na próxima chacina.

mulheres, senhoras, meninas,
que compram flores
para o feriado de finados,
e arrastam a vida
sabendo que a perdem.

Poetas
escravos do consumo,
da fraqueza da multidão,
do que adestra o coração,
da ração cotidiana
de entretenimento
em detrimento
da arte,

não são poetas mais!

declaro aqui, agora,
sequestrada a poesia!
apropriada,
expropriada pelo povo,

retinto
mas sem cor
nas paginas da história,

faminto
de amor
mesmo cercado de glórias,

indistinto pra rima fria
dos fidalgos
que monopolizaram a beleza
a caminho da luxúria.

a rima agora é preta
é parda, é feia,
perneta e banguela.

a métrica corre pelas ruas
descalça, nua, suja,
porém digna de parecer real.

volto então pelas ladrilhas
confiante, de mãos pensas,
passos firmes no pungente
Centro Histórico,
sabendo que tenho só uma história para contar.
a sua!

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