Pobres os que os gritos emergem das aguas
O sol castiga os homens e depois a noite
uma melancolia escura boia no horizonte
e o descansar dos passaros, o cair das folhas
Tudo que desabrochou um dia finda por perecer
em troca de um silencio ruidoso vindo do mar
que infecta o ar acabrunhado da ilha
com a marisia podre, mas sedutora, da baía
e todo fim de tarde atravessar a ponte do medo
da incerteza, e dar novamente naquela ilha
há muito reclamada pelos velhos chefes do velho estado da guanabara
e hoje um amontoado qualquer de prédios e um povo nauseado pelo mar.
Todos os dias nos corredores impassiveis daquele velho prédio
Esperando que o imponderável possa ressurgir do caos daquele leito cético.
Todos os dias, finalmente, vencer o temor da noite
voltar pela mesma ponte e novamente se assombrar
pelos mesmos gritos que emergem da baia e
que um dia foram deixados pra trás por outros como eu.
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
sábado, 16 de setembro de 2017
Etérea
estou viciado naquela tez preta
que é tão preta que pode
pintar toda noite sozinha
que pode, subitamente,
sugar-me para outra dimensão
com aquele buraco negro
que me abraça como uma pequena morte.
que é tão preta que pode
pintar toda noite sozinha
que pode, subitamente,
sugar-me para outra dimensão
com aquele buraco negro
que me abraça como uma pequena morte.
terça-feira, 12 de setembro de 2017
breu
no céu só uma banda de lua
como um seio de mulher jovem
na terra
igrejas imitam shoppings
shoppings parecem bairros
manchando a paisagem nua
pequenas nuvens insinuam quadris
uma banda de bunda suaviza o horizonte
letreiros vermelhos e azuis
olhos cerrados por princípio
fumaça de maconha e tiner
e um sinal dizendo "vá"
a noite tenta imitar aquela pele
e quando acerta
queima como o sol
e tanto quanto queima
é intensa
treva e misteriosa
se veste as vezes
se neblina ou chove
faz saber que é melhor nua
preta e prada não se conjuga
quando vamos ao que importa
símbolos perdem o significado se
desço as curvas exageradas a toda
e sem freio mergulho desesperado
no rio salgado entre aquelas coxas
um grito desvairado que rasga o tecido da noite
uma contradição, um descuido
uma morte sem corpo, sem provas, sem epígrafe
tão magnífica que não cabe no poema
lisa e reluzente desvanece em minha boca
derrete como manteiga em meu rosto quente
se abro os olhos ela é enorme como o céu
e me cabe inteiro
nessas horas sou um poeta sem registros
fazendo obras primas instantâneas que deixam
cheiro no ar e saudade na boca
se eu tivesse papel descreveria melhor
minha ânsia de foder com as estrelas.
como um seio de mulher jovem
na terra
igrejas imitam shoppings
shoppings parecem bairros
manchando a paisagem nua
pequenas nuvens insinuam quadris
uma banda de bunda suaviza o horizonte
letreiros vermelhos e azuis
olhos cerrados por princípio
fumaça de maconha e tiner
e um sinal dizendo "vá"
a noite tenta imitar aquela pele
e quando acerta
queima como o sol
e tanto quanto queima
é intensa
treva e misteriosa
se veste as vezes
se neblina ou chove
faz saber que é melhor nua
preta e prada não se conjuga
quando vamos ao que importa
símbolos perdem o significado se
desço as curvas exageradas a toda
e sem freio mergulho desesperado
no rio salgado entre aquelas coxas
um grito desvairado que rasga o tecido da noite
uma contradição, um descuido
uma morte sem corpo, sem provas, sem epígrafe
tão magnífica que não cabe no poema
lisa e reluzente desvanece em minha boca
derrete como manteiga em meu rosto quente
se abro os olhos ela é enorme como o céu
e me cabe inteiro
nessas horas sou um poeta sem registros
fazendo obras primas instantâneas que deixam
cheiro no ar e saudade na boca
se eu tivesse papel descreveria melhor
minha ânsia de foder com as estrelas.
sábado, 9 de setembro de 2017
tô fumando pra caralho
manhã não vem
um gato dá bola nas costas
de um cachorro velho
a fumaça sobe aos ceus cética
frio pra caralho e
nenhum par de coxas
pra se aconchegar
nenhum gole de conhaque
pra me comover
portão batendo rua afora
uma pobre coitada vai trabalhar
não sei se volta
e se voltar
volta menos
ela precisa de espaço
isso não cabe aqui
pra esse poema
não sonho grande
não me fará rico
nem falado entre
os pequenos burgueses de esquerda
os pequenos burgueses de esquerda
talvez me renda uns goles
num sarau tosco de praça
uma salva falsa de palmas
um par de pernas pra se enroscar
(um par de chifres nos córneos de alguem)
um maço de cigarros baratos
um quê de patético
e unusual
quem sabe
faça a pobre coitada voltar
lembrada que precisa dormir.
domingo, 27 de agosto de 2017
desvio ideológico
o ultimo jornal da noite sempre
me faz dormir preocupado
mas hoje, as palavras neblinam
e o papel é sinuoso para percorrer.
as vezes, de olhos fechados,
entro pela cozinha amarela,
a fechadura reclama da porta,
a garrafa de café sempre vazia à mesa.
antes seguia um vulto até o quarto
onde o amor me queimava como o inferno
agora paro na salinha clara,
interrompo a luz empoeirada,
coração batendo penoso,
não avanço ao próximo cômodo
apenas sinto o silêncio.
abrir os olhos para engolir o sonho,
conhaque para engolir a realidade,
filtro vermelho para engolir a dose.
a tosse é engolida pelo soluço.
levantar-se no domingo pela manhã
ir a reuniões, usar jargões, beber café.
odiar o presidente, temê-lo.
odiar o Pentágono, a direita venezuelana
sentir o sentimento do mundo
e me sentir patético pela última noite.
os discursos se inflamam
enquanto na minha cabeça
neblina.
"cozinha amarela neoliberal"
"luta de classes na salinha clara"
"piquete silencioso no quarto"
"coração penoso que bate colonizado"
um cínico desvio ideológico
no meio da análise de conjuntura.
me faz dormir preocupado
mas hoje, as palavras neblinam
e o papel é sinuoso para percorrer.
as vezes, de olhos fechados,
entro pela cozinha amarela,
a fechadura reclama da porta,
a garrafa de café sempre vazia à mesa.
antes seguia um vulto até o quarto
onde o amor me queimava como o inferno
agora paro na salinha clara,
interrompo a luz empoeirada,
coração batendo penoso,
não avanço ao próximo cômodo
apenas sinto o silêncio.
abrir os olhos para engolir o sonho,
conhaque para engolir a realidade,
filtro vermelho para engolir a dose.
a tosse é engolida pelo soluço.
levantar-se no domingo pela manhã
ir a reuniões, usar jargões, beber café.
odiar o presidente, temê-lo.
odiar o Pentágono, a direita venezuelana
sentir o sentimento do mundo
e me sentir patético pela última noite.
os discursos se inflamam
enquanto na minha cabeça
neblina.
"cozinha amarela neoliberal"
"luta de classes na salinha clara"
"piquete silencioso no quarto"
"coração penoso que bate colonizado"
um cínico desvio ideológico
no meio da análise de conjuntura.
quarta-feira, 23 de agosto de 2017
Alagoas
pequeno montinho de terra
entretanto
monumental.
vence na marra terra adentro
os limites áridos de Pernambuco
guarda a serra em que o espírito revolucionário
de meus antepassados repousa
e é tudo que sei de ti.
guardas também uns pescadores, umas senhoras
com as rugas do sol gigante dessa terra
aboios, toadas, cavalhadas e socorros
pés que se arrastam na terra
de dia na lida
e a noite
num afluente caótico e moreno de amor.
aprendi a te querer pelas curvas
que tua alma desenha na minha
quero tocar teu chão macio com todos os meus poros
ir fundo em ti
que tuas curvas
e cicatrizes
me cabem inteiro.
olhas o horizonte sedento do atlântico e vence
vês a terra seca matar tudo o que se planta e vence
combates contra a dor como quem combate a morte,
mexes nas feridas abertas como teus rios e vence
resiste contra o latifúndio
que mancha tua perspectiva bucólica
e vence
e vencendo
avança.
Alagoas, alagoana
das imagens que por hora me ocorrem em poesia
do cheiro de infância que vem a boca
da saudade que me invade as terras baixas fluminenses
onde também vive o brasil brasileiro
que aprendeste a amar como a mim.
entretanto
monumental.
vence na marra terra adentro
os limites áridos de Pernambuco
guarda a serra em que o espírito revolucionário
de meus antepassados repousa
e é tudo que sei de ti.
guardas também uns pescadores, umas senhoras
com as rugas do sol gigante dessa terra
aboios, toadas, cavalhadas e socorros
pés que se arrastam na terra
de dia na lida
e a noite
num afluente caótico e moreno de amor.
aprendi a te querer pelas curvas
que tua alma desenha na minha
quero tocar teu chão macio com todos os meus poros
ir fundo em ti
que tuas curvas
e cicatrizes
me cabem inteiro.
olhas o horizonte sedento do atlântico e vence
vês a terra seca matar tudo o que se planta e vence
combates contra a dor como quem combate a morte,
mexes nas feridas abertas como teus rios e vence
resiste contra o latifúndio
que mancha tua perspectiva bucólica
e vence
e vencendo
avança.
Alagoas, alagoana
das imagens que por hora me ocorrem em poesia
do cheiro de infância que vem a boca
da saudade que me invade as terras baixas fluminenses
onde também vive o brasil brasileiro
que aprendeste a amar como a mim.
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
o anti-amor romântico
vim escrever minha ode ao ódio
por que o amor nada me deu no teatro municipal
nem na praça paris ou na pedra do arpoador
o amor na verdade
tem me tirado o balançar sonolento na linha irregular de Deodoro
metido abelhas em meus ouvidos
ferroadas em meus pensamentos.
por isso a ode ao ódio deve ser feita
assim não me decepciono mais
com as pernas que sem mais
se fecham a minha frente
dou as costas a elas antes
tão mais de repente
que faço-as parecer ridículas
e tão inúteis quanto as minhas
quando paralisadas pela mágoa.
e assim faço-os parecer ridículos também
os alvarez de azevedos e os vinícius de moraes
e os convenientes drummonds
que tenho em estima
mas que têm me feito beber muito conhaque.
má fase
pela minha caneta
ultimamente
corre um rio
de pressa e vazio
um rio de lugares
comuns
ei de transformá-lo em poesia.
ultimamente
corre um rio
de pressa e vazio
um rio de lugares
comuns
ei de transformá-lo em poesia.
Fogo no engenho
giroflex ilumina
minha face hedionda
capataz esquentando
o chicote hediondo
sinhôzinho prepara
solução hedionda
e eu só sei planejar
meu crime hediondo
negro em fuga na mata
mata revolucionária
matei a voz reacionária
botei fogo no engenho
na barriga tem uma serra
serra da barriga cheia
tem justiça no alguidar
liberdade na candeia
minha face hedionda
capataz esquentando
o chicote hediondo
sinhôzinho prepara
solução hedionda
e eu só sei planejar
meu crime hediondo
negro em fuga na mata
mata revolucionária
matei a voz reacionária
botei fogo no engenho
na barriga tem uma serra
serra da barriga cheia
tem justiça no alguidar
liberdade na candeia
domingo, 16 de julho de 2017
Vigília
a madrugada é a síntese de tudo
fumaça de cigarro contra a gravidade
garagem de ônibus a todo o vapor
sem nada a oferecer aos transeuntes
fumaça de cigarro contra o tempo
o relógio quer amanhecer
defuntas alegrias em treva espessa
abandono e fumaça de cigarro
as vezes abraço quente de mulher
e poesia no ar pra ser escrita
abraço quente de mulher da cor da noite
abraço quente de mulher minha
mas hoje fumaça quente de cigarro
contra o tempo a gravidade e a angústia
abraço quente de um poema além da noite
Corrida impertinente atrás da aurora
fumaça de cigarro contra a gravidade
garagem de ônibus a todo o vapor
sem nada a oferecer aos transeuntes
fumaça de cigarro contra o tempo
o relógio quer amanhecer
defuntas alegrias em treva espessa
abandono e fumaça de cigarro
as vezes abraço quente de mulher
e poesia no ar pra ser escrita
abraço quente de mulher da cor da noite
abraço quente de mulher minha
mas hoje fumaça quente de cigarro
contra o tempo a gravidade e a angústia
abraço quente de um poema além da noite
Corrida impertinente atrás da aurora
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