o ultimo jornal da noite sempre
me faz dormir preocupado
mas hoje, as palavras neblinam
e o papel é sinuoso para percorrer.
as vezes, de olhos fechados,
entro pela cozinha amarela,
a fechadura reclama da porta,
a garrafa de café sempre vazia à mesa.
antes seguia um vulto até o quarto
onde o amor me queimava como o inferno
agora paro na salinha clara,
interrompo a luz empoeirada,
coração batendo penoso,
não avanço ao próximo cômodo
apenas sinto o silêncio.
abrir os olhos para engolir o sonho,
conhaque para engolir a realidade,
filtro vermelho para engolir a dose.
a tosse é engolida pelo soluço.
levantar-se no domingo pela manhã
ir a reuniões, usar jargões, beber café.
odiar o presidente, temê-lo.
odiar o Pentágono, a direita venezuelana
sentir o sentimento do mundo
e me sentir patético pela última noite.
os discursos se inflamam
enquanto na minha cabeça
neblina.
"cozinha amarela neoliberal"
"luta de classes na salinha clara"
"piquete silencioso no quarto"
"coração penoso que bate colonizado"
um cínico desvio ideológico
no meio da análise de conjuntura.
domingo, 27 de agosto de 2017
quarta-feira, 23 de agosto de 2017
Alagoas
pequeno montinho de terra
entretanto
monumental.
vence na marra terra adentro
os limites áridos de Pernambuco
guarda a serra em que o espírito revolucionário
de meus antepassados repousa
e é tudo que sei de ti.
guardas também uns pescadores, umas senhoras
com as rugas do sol gigante dessa terra
aboios, toadas, cavalhadas e socorros
pés que se arrastam na terra
de dia na lida
e a noite
num afluente caótico e moreno de amor.
aprendi a te querer pelas curvas
que tua alma desenha na minha
quero tocar teu chão macio com todos os meus poros
ir fundo em ti
que tuas curvas
e cicatrizes
me cabem inteiro.
olhas o horizonte sedento do atlântico e vence
vês a terra seca matar tudo o que se planta e vence
combates contra a dor como quem combate a morte,
mexes nas feridas abertas como teus rios e vence
resiste contra o latifúndio
que mancha tua perspectiva bucólica
e vence
e vencendo
avança.
Alagoas, alagoana
das imagens que por hora me ocorrem em poesia
do cheiro de infância que vem a boca
da saudade que me invade as terras baixas fluminenses
onde também vive o brasil brasileiro
que aprendeste a amar como a mim.
entretanto
monumental.
vence na marra terra adentro
os limites áridos de Pernambuco
guarda a serra em que o espírito revolucionário
de meus antepassados repousa
e é tudo que sei de ti.
guardas também uns pescadores, umas senhoras
com as rugas do sol gigante dessa terra
aboios, toadas, cavalhadas e socorros
pés que se arrastam na terra
de dia na lida
e a noite
num afluente caótico e moreno de amor.
aprendi a te querer pelas curvas
que tua alma desenha na minha
quero tocar teu chão macio com todos os meus poros
ir fundo em ti
que tuas curvas
e cicatrizes
me cabem inteiro.
olhas o horizonte sedento do atlântico e vence
vês a terra seca matar tudo o que se planta e vence
combates contra a dor como quem combate a morte,
mexes nas feridas abertas como teus rios e vence
resiste contra o latifúndio
que mancha tua perspectiva bucólica
e vence
e vencendo
avança.
Alagoas, alagoana
das imagens que por hora me ocorrem em poesia
do cheiro de infância que vem a boca
da saudade que me invade as terras baixas fluminenses
onde também vive o brasil brasileiro
que aprendeste a amar como a mim.
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
o anti-amor romântico
vim escrever minha ode ao ódio
por que o amor nada me deu no teatro municipal
nem na praça paris ou na pedra do arpoador
o amor na verdade
tem me tirado o balançar sonolento na linha irregular de Deodoro
metido abelhas em meus ouvidos
ferroadas em meus pensamentos.
por isso a ode ao ódio deve ser feita
assim não me decepciono mais
com as pernas que sem mais
se fecham a minha frente
dou as costas a elas antes
tão mais de repente
que faço-as parecer ridículas
e tão inúteis quanto as minhas
quando paralisadas pela mágoa.
e assim faço-os parecer ridículos também
os alvarez de azevedos e os vinícius de moraes
e os convenientes drummonds
que tenho em estima
mas que têm me feito beber muito conhaque.
má fase
pela minha caneta
ultimamente
corre um rio
de pressa e vazio
um rio de lugares
comuns
ei de transformá-lo em poesia.
ultimamente
corre um rio
de pressa e vazio
um rio de lugares
comuns
ei de transformá-lo em poesia.
Fogo no engenho
giroflex ilumina
minha face hedionda
capataz esquentando
o chicote hediondo
sinhôzinho prepara
solução hedionda
e eu só sei planejar
meu crime hediondo
negro em fuga na mata
mata revolucionária
matei a voz reacionária
botei fogo no engenho
na barriga tem uma serra
serra da barriga cheia
tem justiça no alguidar
liberdade na candeia
minha face hedionda
capataz esquentando
o chicote hediondo
sinhôzinho prepara
solução hedionda
e eu só sei planejar
meu crime hediondo
negro em fuga na mata
mata revolucionária
matei a voz reacionária
botei fogo no engenho
na barriga tem uma serra
serra da barriga cheia
tem justiça no alguidar
liberdade na candeia
domingo, 16 de julho de 2017
Vigília
a madrugada é a síntese de tudo
fumaça de cigarro contra a gravidade
garagem de ônibus a todo o vapor
sem nada a oferecer aos transeuntes
fumaça de cigarro contra o tempo
o relógio quer amanhecer
defuntas alegrias em treva espessa
abandono e fumaça de cigarro
as vezes abraço quente de mulher
e poesia no ar pra ser escrita
abraço quente de mulher da cor da noite
abraço quente de mulher minha
mas hoje fumaça quente de cigarro
contra o tempo a gravidade e a angústia
abraço quente de um poema além da noite
Corrida impertinente atrás da aurora
fumaça de cigarro contra a gravidade
garagem de ônibus a todo o vapor
sem nada a oferecer aos transeuntes
fumaça de cigarro contra o tempo
o relógio quer amanhecer
defuntas alegrias em treva espessa
abandono e fumaça de cigarro
as vezes abraço quente de mulher
e poesia no ar pra ser escrita
abraço quente de mulher da cor da noite
abraço quente de mulher minha
mas hoje fumaça quente de cigarro
contra o tempo a gravidade e a angústia
abraço quente de um poema além da noite
Corrida impertinente atrás da aurora
quinta-feira, 6 de julho de 2017
Comendador Soares
o ir e vir
é mercadoria cara
direito que a gente
não entende direito
o menino pulou o muro
ligeiro o menino
andou nos trilhos
galgou os níveis
sociais da plataforma
só com um gesto reclamou
que o trem não vinha
e que a liberdade
aqui nessas bandas
é como um rio
corre clandestina
salta as pedras.
é mercadoria cara
direito que a gente
não entende direito
o menino pulou o muro
ligeiro o menino
andou nos trilhos
galgou os níveis
sociais da plataforma
só com um gesto reclamou
que o trem não vinha
e que a liberdade
aqui nessas bandas
é como um rio
corre clandestina
salta as pedras.
quarta-feira, 19 de abril de 2017
Egresso
dedos miúdos, finos, lisos
dedos de apalpar nuvens
dedos de acariciar rostos
dedos de cortar o rio
dedos de citar Bandeira
e desenhar a partida
dedos que viram a página
que escorrem sangue na próxima
sangue que escorre na carta
sangue que faz o poema
que empossa nos olhos
e deixa o gosto na boca.
não adianta
essa coisa não dá em pedra
de repente, a cólera
abunda na veia
coração é flor que embota e
faz a vida soprar miúda
essa coisa não dá em pedra
a literatura forjou seus fracassos
afogou suas melhores horas de amor
acordas as seis, se lava,
caminhas, se pendura num trem
e vendes 1/3 do teu dia pra um patrão
achas que vai acordar apaixonado amanhã?
teu relógio te embrutece,
essas coisas não dão em pedra.
não vais se apaixonar amanhã
comprarás um apartamento
o carro, os móveis, os cães...
comida japonesa e retratos de família.
e o amor romântico não virá
estará preso na presidente vargas
cinco horas da tarde
enquanto espera virarás pedra,
perderás flores, ganharás limo
e então te voltarás
à tua tenra infância em Rio D'Ouro
das horas que o amor não bastou
e acabou oculto no fundo do rio
poetas do Recife antigo
figuras da baixada de sempre
palavras, garrafas, gargalhadas
na mesma órbita dos caça-niqueis
e do amor legítimo
que não mora no teu peito egresso
mas nas coisas.
Rio D'Ouro
da água que empossa nos olhos
que traz o poema pra boca
que trata a ferida no dedo
no dedo ferido há décadas.
dedos de apalpar nuvens
dedos de acariciar rostos
dedos de cortar o rio
dedos de citar Bandeira
e desenhar a partida
dedos que viram a página
que escorrem sangue na próxima
sangue que escorre na carta
sangue que faz o poema
que empossa nos olhos
e deixa o gosto na boca.
não adianta
essa coisa não dá em pedra
de repente, a cólera
abunda na veia
coração é flor que embota e
faz a vida soprar miúda
essa coisa não dá em pedra
a literatura forjou seus fracassos
afogou suas melhores horas de amor
acordas as seis, se lava,
caminhas, se pendura num trem
e vendes 1/3 do teu dia pra um patrão
achas que vai acordar apaixonado amanhã?
teu relógio te embrutece,
essas coisas não dão em pedra.
não vais se apaixonar amanhã
comprarás um apartamento
o carro, os móveis, os cães...
comida japonesa e retratos de família.
e o amor romântico não virá
estará preso na presidente vargas
cinco horas da tarde
enquanto espera virarás pedra,
perderás flores, ganharás limo
e então te voltarás
à tua tenra infância em Rio D'Ouro
das horas que o amor não bastou
e acabou oculto no fundo do rio
poetas do Recife antigo
figuras da baixada de sempre
palavras, garrafas, gargalhadas
na mesma órbita dos caça-niqueis
e do amor legítimo
que não mora no teu peito egresso
mas nas coisas.
Rio D'Ouro
da água que empossa nos olhos
que traz o poema pra boca
que trata a ferida no dedo
no dedo ferido há décadas.
quarta-feira, 5 de abril de 2017
Melancolia
o mentar prolongado
sobre o assunto que
não veio.
sobre o remédio que
não veio.
e não veio a utopia.
e tudo parou,
e tudo ruiu,
e tudo morreu.
a gota que insiste
e rasga a terra estéril
da face engelhada.
e dói pra sair.
não se sabe se é sangue.
não se sabe se é lágrima.
tem gosto de sal e facada
no fígado.
o que costas se abre,
não há mais perdão.
querer se afogar no rio,
o rio secou, o peixe morreu.
a vida fugiu do pescador
que soltou de um olho
a gota de arsênio
pra não levar chumbo.
e a vida fluiu
em outras fozes
ignorando o calar
de outras vozes
que valem tão pouco,
se falam de dor.
a menina que sonhou coletivamente
e o rapaz que amou ardentemente,
sucumbiram ao grito do apito senil
e à barbárie que ulcerou o coração
dos homens.
e então, o remédio não veio,
o abraço não veio, não veio a verdade,
não veio a empatia, e tudo partiu,
e tudo sumiu, e tudo embotou.
o que se segue
é o mentar
exausto, prolongado,
mas em verso,
porque melancolia,
pela melancolia,
nada resolve.
sobre o assunto que
não veio.
sobre o remédio que
não veio.
e não veio a utopia.
e tudo parou,
e tudo ruiu,
e tudo morreu.
a gota que insiste
e rasga a terra estéril
da face engelhada.
e dói pra sair.
não se sabe se é sangue.
não se sabe se é lágrima.
tem gosto de sal e facada
no fígado.
o que costas se abre,
não há mais perdão.
querer se afogar no rio,
o rio secou, o peixe morreu.
a vida fugiu do pescador
que soltou de um olho
a gota de arsênio
pra não levar chumbo.
e a vida fluiu
em outras fozes
ignorando o calar
de outras vozes
que valem tão pouco,
se falam de dor.
a menina que sonhou coletivamente
e o rapaz que amou ardentemente,
sucumbiram ao grito do apito senil
e à barbárie que ulcerou o coração
dos homens.
e então, o remédio não veio,
o abraço não veio, não veio a verdade,
não veio a empatia, e tudo partiu,
e tudo sumiu, e tudo embotou.
o que se segue
é o mentar
exausto, prolongado,
mas em verso,
porque melancolia,
pela melancolia,
nada resolve.
domingo, 2 de abril de 2017
Engano
Seria bom quem fosse de confiança,
Quem pusesse as mãos no fogo em minha defesa,
Quem não ouvisse calado
Os enxovalhos aos meus córneos.
Mas todos que eu conheço são atletas em tédio
E precisam de um saco de socos pra se exercitar.
E eu, que desavisado atravesso os riscos,
Que canto vitória antes do tempo;
Eu, que abro mão do bom costume
E sou motivo do escárnio e até do ódio;
Eu, que já dancei no fogo por meia dúzia
E me queimei com as brasas furiosas da verdade;
Eu, que passo meus dias fazendo pros outros
roendo os ossos duros das tarefas coletivas;
Sou eu quem acaba pendurado no teto do quarto dos fundos.
Até hoje não fui defendido uma só vez.
És um bom homem, dizem.
Bonito o que fazes.
És o mais forte, o mais íntegro, o exemplo.
Deus sabe o que suportas.
Mas na primeira perversão sem genitor, estou de novo
Pendurado pelos pés no quarto dos fundos.
Poderão as mulheres ter sido traídas,
Posso ter feito as piores desfeitas,
Mas a natureza dos pecados, destes pecados
que me acusam, nunca me ocorrem fazer.
Mas logo estou lá, pendurado
Saboreando os golpes proferidos
Das bocas mais atléticas do socar.
E dizem o que dizem até que eu caia
E espalhe a areia do saco de pancadas
Que sou pelo chão.
Mas areia de saco de pancadas não é sangue
E sem sangue não se resolvem os problemas
E todos ficam calados, me junto e me levanto
E nenhuma desculpa é dita, obrigado nenhum.
E são esses que cobram de mim
A medula da empatia humanista.
E são esses, ó deus, são esses
Meus irmãos não me conhecem.
Quem pusesse as mãos no fogo em minha defesa,
Quem não ouvisse calado
Os enxovalhos aos meus córneos.
Mas todos que eu conheço são atletas em tédio
E precisam de um saco de socos pra se exercitar.
E eu, que desavisado atravesso os riscos,
Que canto vitória antes do tempo;
Eu, que abro mão do bom costume
E sou motivo do escárnio e até do ódio;
Eu, que já dancei no fogo por meia dúzia
E me queimei com as brasas furiosas da verdade;
Eu, que passo meus dias fazendo pros outros
roendo os ossos duros das tarefas coletivas;
Sou eu quem acaba pendurado no teto do quarto dos fundos.
Até hoje não fui defendido uma só vez.
És um bom homem, dizem.
Bonito o que fazes.
És o mais forte, o mais íntegro, o exemplo.
Deus sabe o que suportas.
Mas na primeira perversão sem genitor, estou de novo
Pendurado pelos pés no quarto dos fundos.
Poderão as mulheres ter sido traídas,
Posso ter feito as piores desfeitas,
Mas a natureza dos pecados, destes pecados
que me acusam, nunca me ocorrem fazer.
Mas logo estou lá, pendurado
Saboreando os golpes proferidos
Das bocas mais atléticas do socar.
E dizem o que dizem até que eu caia
E espalhe a areia do saco de pancadas
Que sou pelo chão.
Mas areia de saco de pancadas não é sangue
E sem sangue não se resolvem os problemas
E todos ficam calados, me junto e me levanto
E nenhuma desculpa é dita, obrigado nenhum.
E são esses que cobram de mim
A medula da empatia humanista.
E são esses, ó deus, são esses
Meus irmãos não me conhecem.
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