segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Fogo no engenho

giroflex ilumina
minha face hedionda
capataz esquentando
o chicote hediondo

sinhôzinho prepara
solução hedionda
e eu só sei planejar
meu crime hediondo

negro em fuga na mata
mata revolucionária
matei a voz reacionária
botei fogo no engenho

na barriga tem uma serra
serra da barriga cheia
tem justiça no alguidar
liberdade na candeia

domingo, 16 de julho de 2017

Vigília

a madrugada é a síntese de tudo
fumaça de cigarro contra a gravidade
garagem de ônibus a todo o vapor
sem nada a oferecer aos transeuntes

fumaça de cigarro contra o tempo
o relógio quer amanhecer
defuntas alegrias em treva espessa
abandono e fumaça de cigarro

as vezes abraço quente de mulher
e poesia no ar pra ser escrita
abraço quente de mulher da cor da noite
abraço quente de mulher minha

mas hoje fumaça quente de cigarro
contra o tempo a gravidade e a angústia
abraço quente de um poema além da noite
Corrida impertinente atrás da aurora

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Comendador Soares

o ir e vir
é mercadoria cara
direito que a gente
não entende direito

o menino pulou o muro

ligeiro o menino
andou nos trilhos
galgou os níveis
sociais da plataforma

só com um gesto reclamou
que o trem não vinha

e que a liberdade
aqui nessas bandas
é como um rio

corre clandestina
salta as pedras.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Egresso

dedos miúdos, finos, lisos
dedos de apalpar nuvens
dedos de acariciar rostos
dedos de cortar o rio
dedos de citar Bandeira

e desenhar a partida

dedos que viram a página
que escorrem sangue na próxima
sangue que escorre na carta
sangue que faz o poema

que empossa nos olhos
e deixa o gosto na boca.

não adianta
essa coisa não dá em pedra
de repente, a cólera
abunda na veia
coração é flor que embota e
faz a vida soprar miúda

essa coisa não dá em pedra

a literatura forjou seus fracassos
afogou suas melhores horas de amor

acordas as seis, se lava,
caminhas, se pendura num trem
e vendes 1/3 do teu dia pra um patrão
achas que vai acordar apaixonado amanhã?

teu relógio te embrutece,
essas coisas não dão em pedra.

não vais se apaixonar amanhã
comprarás um apartamento
o carro, os móveis, os cães...
comida japonesa e retratos de família.
e o amor romântico não virá
estará preso na presidente vargas
cinco horas da tarde

enquanto espera virarás pedra,
perderás flores, ganharás limo
e então te voltarás
à tua tenra infância em Rio D'Ouro
das horas que o amor não bastou
e acabou oculto no fundo do rio

poetas do Recife antigo
figuras da baixada de sempre
palavras, garrafas, gargalhadas
na mesma órbita dos caça-niqueis

e do amor legítimo
que não mora no teu peito egresso
mas nas coisas.

Rio D'Ouro
da água que empossa nos olhos
que traz o poema pra boca
que trata a ferida no dedo
no dedo ferido há décadas.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Melancolia

o mentar prolongado
sobre o assunto que
não veio.
sobre o remédio que
não veio.

e não veio a utopia.
e tudo parou,
e tudo ruiu,
e tudo morreu.

a gota que insiste
e rasga a terra estéril
da face engelhada.
e dói pra sair.
não se sabe se é sangue.
não se sabe se é lágrima.
tem gosto de sal e facada
no fígado.

o que costas se abre,
não há mais perdão.

querer se afogar no rio,
o rio secou, o peixe morreu.
a vida fugiu do pescador
que soltou de um olho
a gota de arsênio
pra não levar chumbo.

e a vida fluiu
em outras fozes
ignorando o calar
de outras vozes
que valem tão pouco,
se falam de dor.

a menina que sonhou coletivamente
e o rapaz que amou ardentemente,
sucumbiram ao grito do apito senil
e à barbárie que ulcerou o coração
dos homens.

e então, o remédio não veio,
o abraço não veio, não veio a verdade,
não veio a empatia, e tudo partiu,
e tudo sumiu, e tudo embotou.

o que se segue
é o mentar
exausto, prolongado,
mas em verso,

porque melancolia,
pela melancolia,
nada resolve.

domingo, 2 de abril de 2017

Engano

Seria bom quem fosse de confiança,
Quem pusesse as mãos no fogo em minha defesa,
Quem não ouvisse calado
Os enxovalhos aos meus córneos.

Mas todos que eu conheço são atletas em tédio
E precisam de um saco de socos pra se exercitar.
E eu, que desavisado atravesso os riscos,
Que canto vitória antes do tempo;
Eu, que abro mão do bom costume
E sou motivo do escárnio e até do ódio;
Eu, que já dancei no fogo por meia dúzia
E me queimei com as brasas furiosas da verdade;
Eu, que passo meus dias fazendo pros outros
roendo os ossos duros das tarefas coletivas;
Sou eu quem acaba pendurado no teto do quarto dos fundos.

Até hoje não fui defendido uma só vez.
És um bom homem, dizem.
Bonito o que fazes.
És o mais forte, o mais íntegro, o exemplo.
Deus sabe o que suportas.

Mas na primeira perversão sem genitor, estou de novo
Pendurado pelos pés no quarto dos fundos.

Poderão as mulheres ter sido traídas,
Posso ter feito as piores desfeitas,
Mas a natureza dos pecados, destes pecados
que me acusam, nunca me ocorrem fazer.

Mas logo estou lá, pendurado
Saboreando os golpes proferidos
Das bocas mais atléticas do socar.
E dizem o que dizem até que eu caia
E espalhe a areia do saco de pancadas
Que sou pelo chão.

Mas areia de saco de pancadas não é sangue
E sem sangue não se resolvem os problemas
E todos ficam calados, me junto e me levanto
E nenhuma desculpa é dita, obrigado nenhum.

E são esses que cobram de mim
A medula da empatia humanista.
E são esses, ó deus, são esses
Meus irmãos não me conhecem.

sábado, 1 de abril de 2017

Morte do poeta

(a Carlos Drummond de Andrade) 

Há poucos poemas no país
é preciso entregá-los cedo.
há muita miséria no país
é preciso entregá-los cedo.

vou no único caminho
que essa hora permite.
poças d'água nos canteiros
refletindo a lua tímida.
só há calor nos bueiros
os carros passam frios,
indistintos.

o meu ser desenganado
vai operando este corpo,
e o deixando, passo a passo,
à displicência do caminho,

e vai ganhando altura e olhos
que a genética proíbe
e a física se envergonha.
mas não vou muito alto,

pesam as omissões, as opressões,
a pobreza e os versos fracos,
o conhecimento de poucas
estradas pedregosas, nenhuma de minas.

mas conheço as ruas sujas,
os prédios de caixa de fósforo
do pombal, aqui meus sonhos morrem.

certa vez um homem disse
que um gole de conhaque
e uma lua, qualquer que fosse,
já comoviam um poeta.

desculpe, Carlos,
nunca bebi do teu conhaque,
que lua é esta que te cobriu?

desculpe, Carlos,
estou sendo leviano, estou pedante.
estou seguindo até o enjoo, estou...
sem flores feias.

meus leiteiros morrem todo dia
em casa, no trabalho. na escola, Carlos!
na escola, com aquela pele que ninguém quer.

e este poema continua leviano
e este poeta que te fala, continua...
pedante.

não há mais palavras,
não há mais porque dizê-las.

os muros continuam surdos, Carlos.
os muros continuam cinza, Carlos
não há mais uma guerra para se lutar
e todos os poetas querem morrer.

as luzes amortecidas nos telhados
os telhados amortalhados nas paredes
as paredes amarguradas pelas grades
as grades guardando gente pobre.
a rosa do povo esticada na rua
embaixo das rodas do carro frio.

sexta-feira, 17 de março de 2017

terça-feira à tarde

precisava chorar,
beber e chorar
a noite.

profanar o silêncio
da rua em vigília

tomar um mal caminho,
cair numa poça,
escrever um samba,
pra ganhar uma moça.

mas não tenho dinheiro
não tenho lágrimas
e a noite demora.

o silêncio
os carros matam
impunemente.

já não há escolha
nem chuva, nem samba,
nem vaidade.

só há o vazio,
as letras vazias
as mãos vazias
sem melodia

cheias de saudade.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Antologia

de tudo que escorre daqui para fora
não há uma lágrima que se limite,
não há um limite que se preserve,

não há uma rima que não se quebre.
o verso ecoa no inconsciente antes
de alcançar a sublime existência.

é o abstrato que se mistura e me intriga,
me incomoda como vidro na carne,
toca no cerne dos sentimentos do homem,

traduz-se inconsequente no papel,
vira torrente e deságua no mar da beleza.
triste como toda beleza, se objetifica

nas entranhas do medo, da dor, do amor
e da arte, vai a morte para se embeber,
volta a vida para a simular, há muito a aprendia.

caminhava de olhos baixos, mãos inúteis
na chuva que me rendia em ruas turvas,
mercadorias se ofertavam ao meu engenho

enganadas de que eu havia de comprá-las,
enquanto a coisa me encontrou indefeso,
versou briosa sobre as veias da verdade

desmanchando os edifícios mais soberbos,
desmentindo o concreto ante meus olhos,
desvendando a miudeza de cada máquina

revelando-me as empreitadas engenhosas
que se escondem nas pequenas telas de mão,
senti-me deverás amedrontado, sem fuga,

face a face que massacrava minhas certezas
e a poesia que me convidava indecorosa
desdenhando de indecifráveis cordilheiras.

fustigado pela veemência das montanhas
que se avolumavam antes de se desfazer
no silêncio que a verdade impõe ao mundo.

voltei a ver o riso que habita treze de outubro
oculto no soluçar pungente de outras datas.
numa convicção tão tênue, mas perene,

voltei a pele que habito desde então
sob o rigor do céu que vi fundando tudo
num afluente de palavras que me jorram

pelos dedos que outrora foram inúteis,
e a verdade transitória que me arrasta
nasce íntegra a cada passo do poeta.

sob a chuva que me rende em noite triste
sou a ponte da premissa atemporal
preso ao tempo desta quadra da história.

e espero a coisa me tomar em novo assalto
impelindo-me sem colóquio a um poema
como espera o atirador pela névoa rosa

nasci de novo em um surto escatológico
quando aceitei tal acepção escandalosa:
"as palavras são a antologia dos homens".

quinta-feira, 2 de março de 2017

samba-canção

preciso partir, não sei
não mando em minhas pernas
nem no meu coração

digo que vou, meu bem
vou subir as pedras
vou procurar razão

só vou levar teus cigarros
e o meu violão
sentar-me em botecos baratos
tratando com a solidão

pois do amor vivi mal
pro amor vivi em vão.

vou me levar, meu bem
subir o morro infeliz
com os olhos presos no chão

vou te levar também
pois não sei me navegar
quem me navega é o coração.

só quero o sabor dos cigarros
e o bojo do meu violão
mas no morro não tem mais fumo
e não se canta mais samba-canção.