quarta-feira, 5 de outubro de 2016
para um amor sem vergonha
que não se chama amor.
um descuido que mora
nos olhares sedentos,
e nos pensamentos
indecentes
da madrugada.
que rejeita a ternura,
os calafrios e palpitações,
que prefere o calor
que se alastra
nas calças
quando a vejo.
eu tenho um amor
que não vale um carinho,
que não vale o afago
que um poema faz
n'alma.
é um amor vagabundo,
bagaceiro, de pelos pubianos
que se enroscam,
de seios que se tocam
e se desprezam depois
indo embora
antes do outro acordar.
terça-feira, 27 de setembro de 2016
Ibejis
atravesso os dias cinzas e o atlântico
feito flecha,
busco o sol e o chão vermelho
dos meus ancestrais.
tanto tempo faz,
quanto preto jaz.
do meu povo só me restam os dramas,
os carmas,
os sambas tristes,
e os orixás.
no morro moramos
nos sonhos
descalços dos pretos pequenos,
que escapam do doze
driblando o veneno,
que sabem lá dentro
que todo preto poeta
é um gênio,
da bola, da música,
ou da caneta...
quantos gênios
se esquivam da escopeta
e morrem no vestibular?
Ibejis,
gênios pretos.
demônios
que a igreja condenou,
a criança que a escola abortou,
magia que a ciência calou.
o grito amigável no escuro
que me guiou.
que Oxalá ilumine e faça paz
aos geniozinhos, pretos ricos,
de pés pequenos descalços
que me fazem feliz.
Omi Beijada! Bejiróó!
farami só ibejis!
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
Toda manhã
o mundo inteiro nasce e morre
e eu continuo a suportar Wall Street
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
o novo e o velho
terça-feira, 13 de setembro de 2016
544
a semelhança é fascinante
no marasmo alucinante
da condução abarrotada.
colocando reticências
ao refletir experiências,
ao futuro com esperança
e ao pavor com resistência.
ninguém nasceu pra semente
quem não entende, eu reajo
ao ver a morte dessa gente
e me torno o delinquente.
quem não foi violentado
não precisa ser violento
quem de nós não é o vilão
forjado pela frustração?
quem tá na televisão?
e quem não dorme com remorso?
e quantas gerações ainda gritarão
que o petróleo é nosso.
tá embaçado, engarrafado.
eu revoltado, atrasado e bolado.
outro preto aprisionado na cidade
outro início de noite na via Light.
Flerte
Ela me folheia
e saboreia
meus olhos nela.
Sem pudor,
Eu todo ardor
Vou com pressa
E me perco
No prefácio interminável
E na arte da capa dela.
Preta bela,
Te entendo nada
Mas que gostosa cê é,
Nem te provei
Mas eu já sei,
Ninguém te faz,
Sei como é.
Eu jogo a vera
Na cara dela
Ela joga a vera
Por que ela pode,
E se eu tiver sorte
Serei rei hoje,
Tenho um lugar pra sua coroa
No meu espelho
Mas só essa noite.
Ou quem sabe pra sempre
Ou quem sabe pra agora
E se mais pra frente
Eu não quiser ir embora?
Ninguém vai dizer...
Quem sabe o flerte
Não é só um jogo
De interesse
Uma noite inteira!?
Quem sabe o flerte
Não é o swing
Das mentes na sintonia
De Madureira!?
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
Fora temor
não é por ela,
não é por medo
nem euforia.
não é por ela,
nem pelo mandato
que já não vale
meus pés na rua.
não é por voto,
um ato oco
que nunca foi
democracia.
minha bandeira
só se levanta
vermelha e plena
pra luta justa.
não é por pouco
que o grito uníssono
trouxe pra estrada
o trabalhador
que queima e ocupa,
reage e luta,
pois sem silêncio
não há temor.
domingo, 28 de agosto de 2016
Zero vinte e um
converso com o Rio, me disperso,
nessas horas capto a razão do universo
e transcrevo tudo em papo corrido e reto.
sou a ponte perdida, metralhadora lírica.
de tudo que eu ganhei na vida
a verdade empírica das coisas é a mais bonita.
me tornei um usuário compulsivo da filosofia
sofia vã, como toda flor é escrava da manhã,
e essa flor depende tanto de uma mente sã.
e sanidade está em falta no Rio de Janeiro
de sexta no puteiro e segundas no divã
que caminha pro precipício e não protesta
como se consentisse uma arma apontada pra testa,
que não pula a catraca e não contesta.
forjar consciência na massa é o que resta.
panfleto na central do brasil, cinco horas da tarde,
e enquanto isso pensar como o sistema é covarde,
por que um milhão vai voltar apertado e sofrido
mas nem todo mundo sabe ler o que tá escrito.
e aí, José? e agora?
se acabou o tempo
e cê não acabou a escola.
todo menino é um rei
antes de cheirar cola
e resolver na bala o que resolvia na bola.
pés descalços na apressada candelária,
pés de vento pra malandragem centenária
cobrando a conta da chacina a vera,
roubando a vera de forma precária.
e quem há de entender os órfãos do massacre?
já que o doutor não acredita na luta de classes,
conta essa história pros menores do DEGASE
ao ecoar de "UPP, É O CARALHO, CUMPADI!"
embaçado, José? pois é.
não tem mais bucolismo nem Drummond Andrade.
tem gente que se abstrai da realidade
mas eu me materializo ela na arte.
eu escrevo a poesia que a favela me ensinou
se eu estivesse em Ipanema falaria do amor
mas eu lírico pra mim é o Freddy Krugger
correndo da PM nesse filme de terror.