Do subúrbio pra Baixada
a semelhança é fascinante
no marasmo alucinante
da condução abarrotada.
colocando reticências
ao refletir experiências,
ao futuro com esperança
e ao pavor com resistência.
ninguém nasceu pra semente
quem não entende, eu reajo
ao ver a morte dessa gente
e me torno o delinquente.
quem não foi violentado
não precisa ser violento
quem de nós não é o vilão
forjado pela frustração?
quem tá na televisão?
e quem não dorme com remorso?
e quantas gerações ainda gritarão
que o petróleo é nosso.
tá embaçado, engarrafado.
eu revoltado, atrasado e bolado.
outro preto aprisionado na cidade
outro início de noite na via Light.
terça-feira, 13 de setembro de 2016
Flerte
Ela me abre
Ela me folheia
e saboreia
meus olhos nela.
Sem pudor,
Eu todo ardor
Vou com pressa
E me perco
No prefácio interminável
E na arte da capa dela.
Preta bela,
Te entendo nada
Mas que gostosa cê é,
Nem te provei
Mas eu já sei,
Ninguém te faz,
Sei como é.
Eu jogo a vera
Na cara dela
Ela joga a vera
Por que ela pode,
E se eu tiver sorte
Serei rei hoje,
Tenho um lugar pra sua coroa
No meu espelho
Mas só essa noite.
Ou quem sabe pra sempre
Ou quem sabe pra agora
E se mais pra frente
Eu não quiser ir embora?
Ninguém vai dizer...
Quem sabe o flerte
Não é só um jogo
De interesse
Uma noite inteira!?
Quem sabe o flerte
Não é o swing
Das mentes na sintonia
De Madureira!?
Ela me folheia
e saboreia
meus olhos nela.
Sem pudor,
Eu todo ardor
Vou com pressa
E me perco
No prefácio interminável
E na arte da capa dela.
Preta bela,
Te entendo nada
Mas que gostosa cê é,
Nem te provei
Mas eu já sei,
Ninguém te faz,
Sei como é.
Eu jogo a vera
Na cara dela
Ela joga a vera
Por que ela pode,
E se eu tiver sorte
Serei rei hoje,
Tenho um lugar pra sua coroa
No meu espelho
Mas só essa noite.
Ou quem sabe pra sempre
Ou quem sabe pra agora
E se mais pra frente
Eu não quiser ir embora?
Ninguém vai dizer...
Quem sabe o flerte
Não é só um jogo
De interesse
Uma noite inteira!?
Quem sabe o flerte
Não é o swing
Das mentes na sintonia
De Madureira!?
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
Fora temor
mas que fique claro,
não é por ela,
não é por medo
nem euforia.
não é por ela,
nem pelo mandato
que já não vale
meus pés na rua.
não é por voto,
um ato oco
que nunca foi
democracia.
minha bandeira
só se levanta
vermelha e plena
pra luta justa.
não é por pouco
que o grito uníssono
trouxe pra estrada
o trabalhador
que queima e ocupa,
reage e luta,
pois sem silêncio
não há temor.
não é por ela,
não é por medo
nem euforia.
não é por ela,
nem pelo mandato
que já não vale
meus pés na rua.
não é por voto,
um ato oco
que nunca foi
democracia.
minha bandeira
só se levanta
vermelha e plena
pra luta justa.
não é por pouco
que o grito uníssono
trouxe pra estrada
o trabalhador
que queima e ocupa,
reage e luta,
pois sem silêncio
não há temor.
domingo, 28 de agosto de 2016
Zero vinte e um
Tudo sempre começa com um primeiro verso,
converso com o Rio, me disperso,
nessas horas capto a razão do universo
e transcrevo tudo em papo corrido e reto.
sou a ponte perdida, metralhadora lírica.
de tudo que eu ganhei na vida
a verdade empírica das coisas é a mais bonita.
me tornei um usuário compulsivo da filosofia
sofia vã, como toda flor é escrava da manhã,
e essa flor depende tanto de uma mente sã.
e sanidade está em falta no Rio de Janeiro
de sexta no puteiro e segundas no divã
que caminha pro precipício e não protesta
como se consentisse uma arma apontada pra testa,
que não pula a catraca e não contesta.
forjar consciência na massa é o que resta.
panfleto na central do brasil, cinco horas da tarde,
e enquanto isso pensar como o sistema é covarde,
por que um milhão vai voltar apertado e sofrido
mas nem todo mundo sabe ler o que tá escrito.
e aí, José? e agora?
se acabou o tempo
e cê não acabou a escola.
todo menino é um rei
antes de cheirar cola
e resolver na bala o que resolvia na bola.
pés descalços na apressada candelária,
pés de vento pra malandragem centenária
cobrando a conta da chacina a vera,
roubando a vera de forma precária.
e quem há de entender os órfãos do massacre?
já que o doutor não acredita na luta de classes,
conta essa história pros menores do DEGASE
ao ecoar de "UPP, É O CARALHO, CUMPADI!"
embaçado, José? pois é.
não tem mais bucolismo nem Drummond Andrade.
tem gente que se abstrai da realidade
mas eu me materializo ela na arte.
eu escrevo a poesia que a favela me ensinou
se eu estivesse em Ipanema falaria do amor
mas eu lírico pra mim é o Freddy Krugger
correndo da PM nesse filme de terror.
converso com o Rio, me disperso,
nessas horas capto a razão do universo
e transcrevo tudo em papo corrido e reto.
sou a ponte perdida, metralhadora lírica.
de tudo que eu ganhei na vida
a verdade empírica das coisas é a mais bonita.
me tornei um usuário compulsivo da filosofia
sofia vã, como toda flor é escrava da manhã,
e essa flor depende tanto de uma mente sã.
e sanidade está em falta no Rio de Janeiro
de sexta no puteiro e segundas no divã
que caminha pro precipício e não protesta
como se consentisse uma arma apontada pra testa,
que não pula a catraca e não contesta.
forjar consciência na massa é o que resta.
panfleto na central do brasil, cinco horas da tarde,
e enquanto isso pensar como o sistema é covarde,
por que um milhão vai voltar apertado e sofrido
mas nem todo mundo sabe ler o que tá escrito.
e aí, José? e agora?
se acabou o tempo
e cê não acabou a escola.
todo menino é um rei
antes de cheirar cola
e resolver na bala o que resolvia na bola.
pés descalços na apressada candelária,
pés de vento pra malandragem centenária
cobrando a conta da chacina a vera,
roubando a vera de forma precária.
e quem há de entender os órfãos do massacre?
já que o doutor não acredita na luta de classes,
conta essa história pros menores do DEGASE
ao ecoar de "UPP, É O CARALHO, CUMPADI!"
embaçado, José? pois é.
não tem mais bucolismo nem Drummond Andrade.
tem gente que se abstrai da realidade
mas eu me materializo ela na arte.
eu escrevo a poesia que a favela me ensinou
se eu estivesse em Ipanema falaria do amor
mas eu lírico pra mim é o Freddy Krugger
correndo da PM nesse filme de terror.
quarta-feira, 24 de agosto de 2016
tenho vontade
de agarrar a liberdade
finalmente,
e simplesmente por fim
a minha dor.
tenho vontade
de andar pelo interior das mazelas
do meu povo,
e de ver cada rosto,
de ouvir cada história,
de chorar cada morte.
mas me ressalto,
e tanto medo tenho de ser livre,
e me libertando sozinho,
tornar-me só.
e me resigno,
pois sendo simples parte de mim
não pode ser simples o fim
da minha dor.
me desanimo,
no desalinho da minha vida,
pois caminho no interior de mim mesmo
e me perco.
tenho medo,
e tanto, tanto medo,
de ver um rosto e não lembrar,
de ouvir uma história e não viver,
de ver a morte e não chorar.
tenho medo
do álcool que me é
companhia perigosa
toda noite,
tenho medo do câncer,
que uma hora ou outra
me acometerá.
mas medo tenho,
acima de tudo,
de mim mesmo,
e da minha capacidade inútil
de ser livre
mas não saber
para onde ir.
domingo, 24 de julho de 2016
Soneto do medo
há um monstro morando em meu coração,
que me desarranja por inteiro,
que conhece aos meus íntimos anseios
e me persegue implacável e com paixão.
sem razão vem à tona e me nauseia,
me fustiga, me embota, me extasia,
me fazendo recear a companhia,
e me chantageando com a solidão.
fujo tanto de ser um poeta contrito
vivo num parco amor fugidiço
regente interino do meu coração.
e tudo por força do odor repulsivo,
cônjuge da dor em meu peito ferido,
impunimente a roubar-me a volição.
quinta-feira, 21 de julho de 2016
Nós sequestramos a poesia!
sarjetas imundas
crianças e sacos de lixo
na calçada
lâmpadas queimadas
no sereno frio
alguém sucumbe
no outro lado da rua
outro olha da janela
não vê nada
não enxerga o ser humano
que morre
do auge do glamour
do whisky e da cocaína
da boemia da poesia
que ignora a gente
como quem salta
sobre as poças de urina
das pessoas urinadas
de frio no pungente
Centro Histórico do Rio
às três e meia da manhã
poetas viciados
prostituídos
alheios ao seu povo
não foram poetas jamais!
poetas
vivem no seio do povo
nascem da morte do outro
e na dor
na culpa
na falta
na inutilidade
dos versos
frente a menina
que fraqueja
arqueja
se dobra
e morre
aos catorze
sem maca
sem pílula
sem nome nos jornais
na lista dos hospitais
cujo o estoque
tem em falta
corações
não seria eu poeta
se não pudesse escrever
sobre a vida
a sobrevida
a subvida mal vivida
e sobre a morte
corriqueira
do meu povo
retinto e faminto
indistinto nos braços das viúvas
ou das solteiras
mães em pranto
na próxima chacina
mulheres senhoras meninas
que compram flores
para o feriado de finados
e arrastam a vida
sabendo que a perdem
Poetas
escravos do consumo
da fraqueza da multidão
do que adestra o coração
da ração cotidiana
de entretenimento
em detrimento
da arte
não são poetas mais!
declaro aqui agora
sequestrada a poesia!
apropriada
expropriada pelo povo
retinto
mas sem cor
nas paginas da história
faminto
de amor
mas armado de ódio
indistinto pra rima fria
dos fidalgos
que catalogaram a beleza
a rima agora é preta
é parda é feia
perneta e banguela
a métrica corre pelas ruas
descalça nua suja
porém digna de parecer real
volto então pelas ladrilhas
confiante de mãos pensas
passos firmes no pungente
Centro Histórico
sabendo que tenho só uma história para contar
a sua!
crianças e sacos de lixo
na calçada
lâmpadas queimadas
no sereno frio
alguém sucumbe
no outro lado da rua
outro olha da janela
não vê nada
não enxerga o ser humano
que morre
do auge do glamour
do whisky e da cocaína
da boemia da poesia
que ignora a gente
como quem salta
sobre as poças de urina
das pessoas urinadas
de frio no pungente
Centro Histórico do Rio
às três e meia da manhã
poetas viciados
prostituídos
alheios ao seu povo
não foram poetas jamais!
poetas
vivem no seio do povo
nascem da morte do outro
e na dor
na culpa
na falta
na inutilidade
dos versos
frente a menina
que fraqueja
arqueja
se dobra
e morre
aos catorze
sem maca
sem pílula
sem nome nos jornais
na lista dos hospitais
cujo o estoque
tem em falta
corações
não seria eu poeta
se não pudesse escrever
sobre a vida
a sobrevida
a subvida mal vivida
e sobre a morte
corriqueira
do meu povo
retinto e faminto
indistinto nos braços das viúvas
ou das solteiras
mães em pranto
na próxima chacina
mulheres senhoras meninas
que compram flores
para o feriado de finados
e arrastam a vida
sabendo que a perdem
Poetas
escravos do consumo
da fraqueza da multidão
do que adestra o coração
da ração cotidiana
de entretenimento
em detrimento
da arte
não são poetas mais!
declaro aqui agora
sequestrada a poesia!
apropriada
expropriada pelo povo
retinto
mas sem cor
nas paginas da história
faminto
de amor
mas armado de ódio
indistinto pra rima fria
dos fidalgos
que catalogaram a beleza
a rima agora é preta
é parda é feia
perneta e banguela
a métrica corre pelas ruas
descalça nua suja
porém digna de parecer real
volto então pelas ladrilhas
confiante de mãos pensas
passos firmes no pungente
Centro Histórico
sabendo que tenho só uma história para contar
a sua!
domingo, 17 de julho de 2016
Poetisa
Tu és um pássaro revolto
preso numa gaiola de papel,
que canta tão belo
que ninguém pode ouvir,
que voa tão alto
que ninguém pode ver.
teu talento,
monstruosidade
tão grande
que choca
como o cano de um revolver
engatilhado
no meio dos olhos.
e ilude a rotina
cegando o marasmo.
tu és, menina,
um pássaro triste
preso no próprio quintal,
que quer ser flor
sendo beija-flor,
que quer raiz
tendo asas verdes,
em minha inveja
gostosa de sentir de ti,
posso ouvir o dilacerar
dos corações
no ar parado
dos pontos de ônibus
inundados por teus versos.
amotinando a multidão,
iludindo a polícia.
pois só assim
novos poetas emergem.
quebrando o hábito!
que mais dizer?
tu és, poetisa,
um pássaro lindo
guardado no escuro.
preso numa gaiola de papel,
que canta tão belo
que ninguém pode ouvir,
que voa tão alto
que ninguém pode ver.
teu talento,
monstruosidade
tão grande
que choca
como o cano de um revolver
engatilhado
no meio dos olhos.
e ilude a rotina
cegando o marasmo.
tu és, menina,
um pássaro triste
preso no próprio quintal,
que quer ser flor
sendo beija-flor,
que quer raiz
tendo asas verdes,
em minha inveja
gostosa de sentir de ti,
posso ouvir o dilacerar
dos corações
no ar parado
dos pontos de ônibus
inundados por teus versos.
amotinando a multidão,
iludindo a polícia.
pois só assim
novos poetas emergem.
quebrando o hábito!
que mais dizer?
tu és, poetisa,
um pássaro lindo
guardado no escuro.
segunda-feira, 11 de julho de 2016
Pássaro triste
eu te amo, mas não me amo.
não me amo para te amar
mais que te amo,
e suscitar em ti
as bonitas coisas do amor.
eu te amo sim,
mas não posso me amar.
sou infiel, ausente,
displicente,
forjo fracassos
por diversão.
estou decadente,
a tristeza cortou
minhas asas,
me impediu de voar,
mas fez do meu canto
o melhor para você,
meu amor.
sei que logo estarei velho
nas mesas de jogos de azar,
com cigarros me matando
entre os dedos,
sozinho, rusguento
e moribundo.
e só me restará
a certeza de que te amei,
e sofri, e sorri, e chorei,
e fui o pior dos teus
melhores amigos,
e te fiz provar
das piores bebidas,
e do gosto amargo
da solidão.
mas no dia em que você voar
deixe uma pena em meu ninho,
para que tu vivas para sempre
no meu coração.
não me amo para te amar
mais que te amo,
e suscitar em ti
as bonitas coisas do amor.
eu te amo sim,
mas não posso me amar.
sou infiel, ausente,
displicente,
forjo fracassos
por diversão.
estou decadente,
a tristeza cortou
minhas asas,
me impediu de voar,
mas fez do meu canto
o melhor para você,
meu amor.
sei que logo estarei velho
nas mesas de jogos de azar,
com cigarros me matando
entre os dedos,
sozinho, rusguento
e moribundo.
e só me restará
a certeza de que te amei,
e sofri, e sorri, e chorei,
e fui o pior dos teus
melhores amigos,
e te fiz provar
das piores bebidas,
e do gosto amargo
da solidão.
mas no dia em que você voar
deixe uma pena em meu ninho,
para que tu vivas para sempre
no meu coração.
sábado, 9 de julho de 2016
O amor é um cão dos diabos
é como se não pudesse
e se pudesse não tentasse,
mas pra todas depois de ti
meu coração encrudesce,
e é como se nosso caminho
eu outra vez palmilhasse,
e ao examinar onde nos perdemos
me perdesse outra vez nas respostas,
atravessadas, mal dadas e sujas,
nas minhas mentiras, nas suas,
nas nossas piores apostas.
agora o mundo se abre
e se mostra pra mim como um sonho,
o simulacro mudo de um riso
ecoando por acres e acres
ao lembrar teu rosto risonho.
a duras penas me recomponho
e me ponho a fitar o inverno,
usarei de todo artifício
pra demolir em mim o edifício
erguido pela fábula do amor eterno.
se entre outras pernas te mato
na solidão eu não te renego,
te invoco em conhaques e cigarros
e aquele velho roto eu não nego,
teu folheto avisou mas sou cego,
é mesmo o amor um cão dos diabos.
e se pudesse não tentasse,
mas pra todas depois de ti
meu coração encrudesce,
e é como se nosso caminho
eu outra vez palmilhasse,
e ao examinar onde nos perdemos
me perdesse outra vez nas respostas,
atravessadas, mal dadas e sujas,
nas minhas mentiras, nas suas,
nas nossas piores apostas.
agora o mundo se abre
e se mostra pra mim como um sonho,
o simulacro mudo de um riso
ecoando por acres e acres
ao lembrar teu rosto risonho.
a duras penas me recomponho
e me ponho a fitar o inverno,
usarei de todo artifício
pra demolir em mim o edifício
erguido pela fábula do amor eterno.
se entre outras pernas te mato
na solidão eu não te renego,
te invoco em conhaques e cigarros
e aquele velho roto eu não nego,
teu folheto avisou mas sou cego,
é mesmo o amor um cão dos diabos.
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