quinta-feira, 9 de junho de 2016

Declaração de amor à minha classe

Nasci ao todo três vezes:

a primeira e mais conhecida
foi naquele treze de outubro
em que eu fui cuspido
para a luz branca e violenta
do capitalismo em sua fase
monopolista.

meus olhos doeram e
meus braços e pernas provavelmente,
mas de minha mãe só tive bons tratos
e o mundo pra mim foi um seio de mãe.
os mais leves anos de minha melhor vida.
a natureza indômita da pureza humana,
que não dura mais que 6 anos.
minha infância envelheceu
e eu morri.

depois nasci de novo
naquele sonho adolescente,
naquele inverno quente e bonito,
entre aquelas pernas esguias e negras.
foi quando aprendi a ler o corpo de mulher
recipiente que equilibra o sagrado e o profano
na alquimia que cria o amor.

incipiente e ainda egoísta
como a criança que matei na outra vida,
meti-me a alquimista,
a formula então foi perdendo o efeito
no corpo dela já não cabia meu amor,
e ela se foi, e eu morri outra vez.

e na vida material? já nasci morto,
como toda prole desprevenida e sem instrumento.
pútrido meu corpo se dirigia a fábrica
onde meu sangue e suor alimentavam uma máquina -
veja só a ironia - que fazia carteiras de trabalho.

eu era a personificação perfeita do Trabalho
acorrentado em 8 horas de produção,
descaracterizado de sua função,
de transformar a natureza em vida humana.
escravizado pelo outro lado da contradição,
Capital, o deus dessa religião monoteísta,
toda poderosa onipresença nas relações da humanidade.
destruindo as relações de verdadeira humanidade.

quando cruzei os braços
o deus de papel sucumbiu
e eu enxerguei que não estava em putrefação
o cheiro de podre que eu sinto não é meu.
Deus está morto e não sabe
cabe a nós enterrá-lo.

na luta de classes
difícil, ingrata e injusta
nasci pela última vez
e não pretendo morrer.

falhei como filho e como amante,
mas em minha classe não termino em mim mesmo,
em minha classe nasce o futuro,
em minha classe vivo para sempre.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O homem preto

Esta é a história do homem preto
que causa convulsão no centro de conhecimento
da supremacia dos brancos.
o homem preto não acredita no racismo,
ele combate.
o homem preto não quer capital,
ele quer a revolução.
o homem preto
contra todo tipo de opressão.

os inimigos não acreditam no homem preto
por que o homem preto é perigoso ao poder.
eles querem um motivo para matá-lo.
procuram na casa do homem preto,
não encontram nada.
procuram na família do homem preto,
ninguém diz nada.
procuram na postura do homem preto,
mas esta é cristalina como a água.

mas o inimigo é astuto,
quer a cabeça do homem preto,
então usa a arma do oprimido
feita para se defender do homem branco,
para atacar, advinha quem,

o homem preto.

o capitão do mato forjava motivo
pra levar o preto pro tronco,
a polícia forja motivo
para levar o nosso povo pra cela,
o patrão conspira baixinho
para manter o homem preto na favela,

e mesmo vencendo essa vida
de mazelas,

novamente forjam motivo
para matar a dignidade
do homem preto,
e dizem que ele furou
o mandamento que a preta nagô, sua vó,
lhe ensinou:
"trate toda filha de Nanã com amor"

mas o homem preto é FORTE.
Olorum Ekê!
filho do Povo de santo FORTE!
Kaô Cabecilê,
Xangô, pai da justiça
quem conta contigo, não conta com a sorte.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Panelas mudas

Olhos dóceis na TV
enquanto a vacilação
do golpista jorra.
a trama vazou
fazendo emergir o esgoto
na avenida Paulista
vazia.

Panelas mudas
em Copacabana,
mas em Costa Barros
os canos assassinos
continuam a berrar,
atravessando carros populares
e órgãos, e ossos, e sonhos
de famílias inteiras

Panelas mudas
para a miséria,
para a mentira,
para a omissão.

Panelas mudas
para a tarifa à 3,80,
para o encarceramento da juventude,
para a genocídio do povo preto.

Panelas mudas,
por que o que era mal
passou,

e por que o silêncio é
um privilégio
de classe.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Titun Igba (Novos Tempos)

Xangô Agodô,
Rei de Oyo
e do Rio.
Dono do trovão,
Pai Xangô.
Obá Kosso.

Justiça vai vir,
Afonjá,
governante Rei
vai vingar.
pela ira de Olorum,
Obá Jukatá

Se me escolheu,
Xangô,
vou cantar!
é tempo de amor
mãe Oyá.
Traz o Oxê
de Xangô Ajaká.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Sobre o adeus

Havia um milhão de formas de sermos felizes
e mais de um milhão de jeitos de errar,
um milhão e meio de formas de ficar
e tantas outras milhões de formas de partir,
tantas e tantas substâncias e sentimentos
pra nos preencher,
mas escolhestes uma, a única
autêntica e indiscutível pior forma de seguir:
a distância.

sábado, 17 de outubro de 2015

Sobre a saudade

As estrelas são desbotadas
no céu metropolitano,
outubro é sempre quente
e sem pudor,

desço então a noite deserta
vou em direção às respostas,
mas todas as apostas que eu fiz
nunca me disseram nada.

saudade é mais
que acaso e ausência
de sentido,

saudade é mais
que falta
e solidão,

saudade é perder na vida
o motivo do sorriso
mas mantê-lo vivo no coração.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Samba-de-meio-de-ano

Canção de amor
e da solidão,
samba de meio de ano
em questão,

a chuva sempre cai
no fim do carnaval,
o amor sempre trai
no desfile final.

e aí, quem dirá que o coração
rasgado e sofrendo em vão, abandonado
como as alegorias do passado

será capaz de entender
o que houve de errado
e cantar na cadência de um samba-canção?

domingo, 4 de outubro de 2015

Os sertões

Todos os dias são áridos,
nesta terra só eu me precipito.
o ar se vai e tudo teima em morrer
sob o céu sem nuvens de outubro.

primavera é sempre nada.
do chão estéril só brotam flores de plástico
na caatinga do meu coração só cactos
de onde eu tiro seiva bruta
e dou de beber em versos
a quem mais tiver sede.

acompanhado,
e demasiadamente só,
sempre.

porém, há sempre fogo
entre outras pernas,
e companhia descartável
noutros olhos.

há sempre um abraço de amor,
e outro de adeus.

e há sempre outras bocas, seios e mãos.

por fim há sempre outras flores,
mas desde ti meu coração é sertão,
e nos sertões tu se chama saudade.

domingo, 31 de maio de 2015

Ô preta,
O cheiro que você deixou
No meu peito
É de saudade.

Preta
É a pele de menina,
o corpo da mulher
Que me deixou sonhando.
A alma te olho de perto
No fundo do meu inconsciente.

Castanha,
Bem escura é tua íris.

Por trás dos olhos
Seus códigos
Continuam a me enlouquecer.
Decifro-te,
Mas mesmo assim
tu me devora.

Pretinha,
Minha.

Controversa materialização
do meu prazer

Abandono os polímatas franceses
E todo materialismo dos
Historiadores da Inglaterra.
Me pego calculando
As tuas medidas impossíveis,
Suas curvas perigosas

Das cifras e códigos
não sou amante
Mas nos teus números
Há poesia

Me sinto um tolo
Mas não te diminuo
À minha essência animal.
Afinal quem me ensinou a sorrir outra vez?

Preta, Pretinha
Quero ver teu black power
Florescer no meu espelho,
Brindando a liberdade com amor.

Queria ter pretinhos
Parecidos com você
E provar pro mundo
Que existem anjos negros

Queria tudo,
Mas neste quarto
A esta distância
Não posso me entregar.
Sou um poeta sozinho
Num samba triste
Ao luar.

Contando as garrafas vazias
E as bitucas de cigarros de palha
queimados no chão
Sonhando em contar estrelas contigo
E te dar o meu peito como abrigo.

sábado, 25 de abril de 2015

Sobre os passos de abril

meu peito é uma prisão
maciça e indestrutível
um complexo indivisível
de razão e desespero.
o produto sensato
de um destempero.
uma caixa sem enfase
e paradoxal.

neste tórax nu
a altas horas
bate um coração vagabundo,
moribundo,
mastigando as migalhas do mundo
recluso na prisão
de carne, osso e petulância
morrendo de arrogância,
vivendo este absurdo.

todas as mulheres dormem sobre meu peito
nenhuma ouve meu coração
que como um pássaro ferido
sussurra uma oração
com assovios baixos e surdos
a tempos regulares
perdidos nos passos mudos da multidão.

meus olhos doentes, carentes
se perdem em todos os seios e lábios
qualquer olhar recíproco me consola
nenhum me renova,
mas na madrugada
todos os malandros são sábios.

me volto então
a minha classe e alguns poemas
algumas mentiras me ajudam a viver
outras me ensinam com lemas
mas todas são falsas
e um dia vergonhosamente
ão de perecer.

e o fedor
da velha classe e dos velhos versos
não causarão furor
no mundo novo que há de vir
a liberdade me enche os olhos
mas não é pra mim
e pra fugir da decepção
me escondo
em minha gaiola
forrada de cetim.