terça-feira, 12 de abril de 2016

Titun Igba (Novos Tempos)

Xangô Agodô,
Rei de Oyo
e do Rio.
Dono do trovão,
Pai Xangô.
Obá Kosso.

Justiça vai vir,
Afonjá,
governante Rei
vai vingar.
pela ira de Olorum,
Obá Jukatá

Se me escolheu,
Xangô,
vou cantar!
é tempo de amor
mãe Oyá.
Traz o Oxê
de Xangô Ajaká.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Sobre o adeus

Havia um milhão de formas de sermos felizes
e mais de um milhão de jeitos de errar,
um milhão e meio de formas de ficar
e tantas outras milhões de formas de partir,
tantas e tantas substâncias e sentimentos
pra nos preencher,
mas escolhestes uma, a única
autêntica e indiscutível pior forma de seguir:
a distância.

sábado, 17 de outubro de 2015

Sobre a saudade

As estrelas são desbotadas
no céu metropolitano,
outubro é sempre quente
e sem pudor,

desço então a noite deserta
vou em direção às respostas,
mas todas as apostas que eu fiz
nunca me disseram nada.

saudade é mais
que acaso e ausência
de sentido,

saudade é mais
que falta
e solidão,

saudade é perder na vida
o motivo do sorriso
mas mantê-lo vivo no coração.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Samba-de-meio-de-ano

Canção de amor
e da solidão,
samba de meio de ano
em questão,

a chuva sempre cai
no fim do carnaval,
o amor sempre trai
no desfile final.

e aí, quem dirá que o coração
rasgado e sofrendo em vão, abandonado
como as alegorias do passado

será capaz de entender
o que houve de errado
e cantar na cadência de um samba-canção?

domingo, 4 de outubro de 2015

Os sertões

Todos os dias são áridos,
nesta terra só eu me precipito.
o ar se vai e tudo teima em morrer
sob o céu sem nuvens de outubro.

primavera é sempre nada.
do chão estéril só brotam flores de plástico
na caatinga do meu coração só cactos
de onde eu tiro seiva bruta
e dou de beber em versos
a quem mais tiver sede.

acompanhado,
e demasiadamente só,
sempre.

porém, há sempre fogo
entre outras pernas,
e companhia descartável
noutros olhos.

há sempre um abraço de amor,
e outro de adeus.

e há sempre outras bocas, seios e mãos.

por fim há sempre outras flores,
mas desde ti meu coração é sertão,
e nos sertões tu se chama saudade.

domingo, 31 de maio de 2015

Ô preta,
O cheiro que você deixou
No meu peito
É de saudade.

Preta
É a pele de menina,
o corpo da mulher
Que me deixou sonhando.
A alma te olho de perto
No fundo do meu inconsciente.

Castanha,
Bem escura é tua íris.

Por trás dos olhos
Seus códigos
Continuam a me enlouquecer.
Decifro-te,
Mas mesmo assim
tu me devora.

Pretinha,
Minha.

Controversa materialização
do meu prazer

Abandono os polímatas franceses
E todo materialismo dos
Historiadores da Inglaterra.
Me pego calculando
As tuas medidas impossíveis,
Suas curvas perigosas

Das cifras e códigos
não sou amante
Mas nos teus números
Há poesia

Me sinto um tolo
Mas não te diminuo
À minha essência animal.
Afinal quem me ensinou a sorrir outra vez?

Preta, Pretinha
Quero ver teu black power
Florescer no meu espelho,
Brindando a liberdade com amor.

Queria ter pretinhos
Parecidos com você
E provar pro mundo
Que existem anjos negros

Queria tudo,
Mas neste quarto
A esta distância
Não posso me entregar.
Sou um poeta sozinho
Num samba triste
Ao luar.

Contando as garrafas vazias
E as bitucas de cigarros de palha
queimados no chão
Sonhando em contar estrelas contigo
E te dar o meu peito como abrigo.

sábado, 25 de abril de 2015

Sobre os passos de abril

meu peito é uma prisão
maciça e indestrutível
um complexo indivisível
de razão e desespero.
o produto sensato
de um destempero.
uma caixa sem enfase
e paradoxal.

neste tórax nu
a altas horas
bate um coração vagabundo,
moribundo,
mastigando as migalhas do mundo
recluso na prisão
de carne, osso e petulância
morrendo de arrogância,
vivendo este absurdo.

todas as mulheres dormem sobre meu peito
nenhuma ouve meu coração
que como um pássaro ferido
sussurra uma oração
com assovios baixos e surdos
a tempos regulares
perdidos nos passos mudos da multidão.

meus olhos doentes, carentes
se perdem em todos os seios e lábios
qualquer olhar recíproco me consola
nenhum me renova,
mas na madrugada
todos os malandros são sábios.

me volto então
a minha classe e alguns poemas
algumas mentiras me ajudam a viver
outras me ensinam com lemas
mas todas são falsas
e um dia vergonhosamente
ão de perecer.

e o fedor
da velha classe e dos velhos versos
não causarão furor
no mundo novo que há de vir
a liberdade me enche os olhos
mas não é pra mim
e pra fugir da decepção
me escondo
em minha gaiola
forrada de cetim.


quarta-feira, 18 de março de 2015

Vermelha, bandeira.

Sou do Partido Comunista Brasileiro,
minha bandeira quase centenária
não envelhece, ao contrário,
me remete àquele 25 de março
na Guanabara proletária,
mil novecentos e vinte e dois.

Partidão
de lutadores e insubmissos
como são os comunistas
em sua ênfase apaixonada.

apesar de tudo,
aquela bandeira vermelha
de foice e martelo augustos
se manteve tremulando
mesmo na chuva,
encharcada, pesada;
mesmo na noite fria,
solitária;
mesmo na dor
de ser incendiada;
sinalizou a saída:
a via camponesa,
a luta operária.

agora novamente
querem te condenar,
bandeira vermelha
do Partido Comunista.
novamente
odeiam tuas cores
e difamam teus ídolos.
teus militantes outra vez
estão prestes a sangrar.

mas prosseguem sem medo,
pois o sangue quente
que corre em suas veias
explica o vermelho nos olhos.

pois sabem
que todo comunista
é uma rosa vermelha
que quando arrancada
e jogada ao vento
vive pra sempre
em seu perfume,

e borda no seio do povo
que o socialismo
é o futuro do mundo.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Um comunista

Caminho pelo Centro
não vou sem rumo.
anseio a luz da liberdade
e a cada esquina
um arrepio na pele,
e um vento frio no peito.
moro no coração rebelde
dos meus camaradas.
os muros vão caindo
enquanto passamos.
pernas, mastros e bandeiras vermelhas
se misturam ao clarão que se extingue
por trás da serra.
o anoitecer abre corações.
eu os invado.

os olhos me espelham a semelhança
de cada homem e mulher livre,
todos os ouvidos atentos na fala
de um comunista frágil
que para o tráfego,
desmonta o quebra cabeça de concreto,
interrompe as veias da cidade,
e faz o coração proletário bater.

depois segue em frente,
pois progredir
é a natureza do comunista,
mas a cada vez que caminha
pinta um canto da cidade
de vermelho.

Capitalismo:
Não importa se é neo-liberal ou keynesiano.
Não importa se a empresa é privada ou estatal.
Não importa se o petróleo é "nosso" ou deles.
Não importa se é estrela ou tucano.
Capitalismo mata,
mutila.
Capitalismo tira a dignidade,
torna o homem descartável.
Capitalismo é hostil.
Pra começarmos a viver,
ele precisa acabar.