Sempre quis
ser dialética
mas é paradoxo
ortodoxo a uma
filosofia hermética
sobre a mudança
um velho
de vinte e poucos.
ranzinza
na esperança
de que um muro
erguido sobre a morte
não seja cinza.
suponho eu, que
pratique
a suposição
se tivesse autonomia
gritaria
se tivesse armas
se rebelaria
se tivesse câncer,
ah, se tivesse um câncer..
na primeira chance
morreria.
domingo, 4 de janeiro de 2015
sábado, 27 de dezembro de 2014
Rua Cinco
A luz se foi no subúrbio.
a escuridão pintou as esquadrias
das casas de alvenaria de preto.
destemidos,
os gatos correram sobre os muros.
atônitas as famílias lamentaram
e perguntaram uns aos outros:
e agora, o que fazer?
Os televisores ridículos e murchos
se esconderam na escuridão da mobília,
as velas incendiaram suas telas
gigantes
e a luz amarela refletiu sua vergonha.
pequenos pés descalços e
despreocupados
logo se espalharam pelo asfalto,
os pneus nervosos estacionaram
vergonhosos da nudez dos pés infantis
um violão soou desajeitado e logo se
ajeitou.
um belo samba se fez ouvir.
açoitados pela brisa que além de
vento trazia musica
os postes de luz foram morrendo
as lampadas de mercúrio incandescentes
desencandesceram
os cabos elétricos sem eletricidade se
tornaram inúteis
e dentro das casas as camisas de força
se rasgaram.
todos correram para olhar o céu
a lua, até então tímida se abriu,
estava cheia de luz
e vestida de suaves nuvens de seda.
tantas e tantas estrelas foram nascendo
e enquanto nasciam
bordavam os sorrisos dente a dente.
a suave brisa trouxe até aqui
estes cheiros e sons,
suspendi então os olhos do caderno
sobre o qual minha caneta sangrava.
o fogo da vela tremeu com meu suspiro
fechei os olhos e parei de sangrar
os abri de novo
e peguei meu violão a me olhar,
por trás dos meus portões de aço
a rua cinco me ouviu cantar.
a rua cinco me ouviu cantar.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
ausência
não há o que dizer sobre o deserto
onde o futuro é uma linha tênue
camuflada pela noite, boiando no horizonte
onde depois da hora mais escura
do instante mais frio
o sol põe fogo no céu,
o céu põe fogo no chão.
o amanhecer na cidade é parecido
quando tudo o que se vê
é um deserto de concreto armado no aço,
e o céu tem a cor da fumaça do cigarro.
eu fico aqui camuflado na noite,
a fumaça vai boiando no horizonte.
eu queria meu travesseiro de vento
eu queria um buraco no tempo
mas só o que eu tenho é a ausência
no ar quente parado deste frio pré-matinal
A imensidão em mim é absurda, paradoxal
estou cheio de acres e acres de espaço
meu grito de dor se expande, os preenche e morre.
e no espelho dos meus olhos não há nada.
sem chão, sem céu, sem paredes ou portas
meu peito é deserto, meu nome é ausência.
onde o futuro é uma linha tênue
camuflada pela noite, boiando no horizonte
onde depois da hora mais escura
do instante mais frio
o sol põe fogo no céu,
o céu põe fogo no chão.
o amanhecer na cidade é parecido
quando tudo o que se vê
é um deserto de concreto armado no aço,
e o céu tem a cor da fumaça do cigarro.
eu fico aqui camuflado na noite,
a fumaça vai boiando no horizonte.
eu queria meu travesseiro de vento
eu queria um buraco no tempo
mas só o que eu tenho é a ausência
no ar quente parado deste frio pré-matinal
A imensidão em mim é absurda, paradoxal
estou cheio de acres e acres de espaço
meu grito de dor se expande, os preenche e morre.
e no espelho dos meus olhos não há nada.
sem chão, sem céu, sem paredes ou portas
meu peito é deserto, meu nome é ausência.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
Ao Botafogo de Futebol e Regatas
Me rasgas o peito e me deitas no chão
mas não há lágrimas que não sequem
e foi tu, meu primeiro amor, que me fizeste ver
dos bons momentos teus amantes nunca esquecem
escalo o céu com os olhos e tua estrela ainda está lá
não és cadente, ó lindo brasão da vitória!
me guias na escuridão e então adormece na glória,
dentro da imensa ferida que me fizestes no peito
agora há uma estrela no lugar do meu coração
esta estrela me maltrata, me dói, mas não a rejeito
ela me faz pular, sorrir e gritar, levantar a cabeça e dizer
ao peito daqueles que riem por nunca chorar
o amor por natureza se manifesta na dor
e se não sentes dor como podes amar?
mas não há lágrimas que não sequem
e foi tu, meu primeiro amor, que me fizeste ver
dos bons momentos teus amantes nunca esquecem
escalo o céu com os olhos e tua estrela ainda está lá
não és cadente, ó lindo brasão da vitória!
me guias na escuridão e então adormece na glória,
dentro da imensa ferida que me fizestes no peito
agora há uma estrela no lugar do meu coração
esta estrela me maltrata, me dói, mas não a rejeito
ela me faz pular, sorrir e gritar, levantar a cabeça e dizer
ao peito daqueles que riem por nunca chorar
o amor por natureza se manifesta na dor
e se não sentes dor como podes amar?
domingo, 30 de novembro de 2014
do que adianta?
não me basta desconstruir a mim mesmo
que sou feito de arame e concreto
afim de fazer pontes leves
de madeira virgem e corda,
e flores da mata trepadas nos nós,
enroscando nas mãos.
não me basta depois de fazer estas pontes
trazer pessoas para este lado
e vê-las fazendo pontes umas com as outras,
e vê-las misturar-se em suas cores, e crenças,
e gêneros, e amores, e veias, e ossos e sangue
por notar que sem os muros e com as pontes
há uma única coisa em comum,
uma unica coisa que importa:
amanhã morreremos do mesmo mal
no Japeri lotado à Central.
e não me basta que essa multidão que tem meu rosto
filhos dos trilhos e do aço,
e da inchada, e da foice, do martelo e da caneta.
não me basta que estes saiam derrubando muros como eu,
muros de miséria, desprezo, ódio e exploração
e quem sabe um dia, ah num belo dia
derrubemos muros de concreto
que separam o cidadão da cidade.
não me basta que, por um dia
o sol e a lua tirassem folga
e que as estrelas caíssem do céu,
e que o nosso sangue derramado
pela profundidade da história adentro
tingissem a tela azul do infinito
brindando a unica estrela que resta
só pra nos lembrar que somos um só
em toda parte.
em toda parte.
e neste chão que sempre foi nosso
encharcado pelo coração
vermelho dos nossos mártires
triunfemos absolutos.
já não me basta, e nenhuma certeza absurda
de justiça me bastará,
se não conseguires te mover em direção à vida,
se em teus olhos não há utopia,
se em teu horizonte não há esperança.
neste caso,
meu irmão, minha irmã,
eu lhes pergunto:
do que minha ponte adianta?
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Sobre Atom Heart Mother
No começo tudo era silêncio
antes mesmo da escuridão
e então fez-se o sopro,
o arco, as cordas.
se fez o metal.
me posiciono no mesmo barco
no mesmo rio,
mas é outro tempo.
eu passei
a água passou
ouço o grito do pai
mas não há nada de sagrado,
sua voz é rouca
seu timbre é forte
seu coração é distorcido,
um órgão soa ao fundo.
e fez-se o céu
na cor dos olhos daquela criança.
era verão.
e fez-se a terra
encharcada de sangue, vermelha como meus olhos.
Os anjos em coro falam sua própria língua
e aquele órgão continua a soar.
o tempo é belo e eterno.
passa a vida
passa o homem
passa a água
passa a ponte
fica o tempo
medido na corrida incessante
do ponteiro
que persegue o próprio rabo
eternidade a dentro.
passa a pilha
e o relógio,
passam os anjos,
o pai, a mãe e o filho
não importa que horas são
é tempo de desjejum:
"chá, torrada, café,
salsicha. Rosbife"
é tempo de pensar canções
e cantar filosofias.
o pai grita outra vez
'controlem as suas gargantas' - eu posso ouvir.
os anjos param.
o silêncio é perturbador e cresce,
alguns se atrevem, projetam a voz,
o som do metal os atinge.
os anjos caem no abismo.
o silêncio se faz novamente
no seio rebelde dos anjos.
na mente maldosa da gente
se faz a necessidade de cantar.
se faz também a guerra e a morte,
feito pra nós e por nós
pois é nossa culpa.
se faz o caos
se faz a caneta
se faz a poesia
tudo se funde num mesmo impasse.
no fim
tudo passa.
passa o homem
passa o rio
passa o pai.
fica o tempo
e sua transitoriedade.
antes mesmo da escuridão
e então fez-se o sopro,
o arco, as cordas.
se fez o metal.
me posiciono no mesmo barco
no mesmo rio,
mas é outro tempo.
eu passei
a água passou
ouço o grito do pai
mas não há nada de sagrado,
sua voz é rouca
seu timbre é forte
seu coração é distorcido,
um órgão soa ao fundo.
e fez-se o céu
na cor dos olhos daquela criança.
era verão.
e fez-se a terra
encharcada de sangue, vermelha como meus olhos.
Os anjos em coro falam sua própria língua
e aquele órgão continua a soar.
o tempo é belo e eterno.
passa a vida
passa o homem
passa a água
passa a ponte
fica o tempo
medido na corrida incessante
do ponteiro
que persegue o próprio rabo
eternidade a dentro.
passa a pilha
e o relógio,
passam os anjos,
o pai, a mãe e o filho
não importa que horas são
é tempo de desjejum:
"chá, torrada, café,
salsicha. Rosbife"
é tempo de pensar canções
e cantar filosofias.
o pai grita outra vez
'controlem as suas gargantas' - eu posso ouvir.
os anjos param.
o silêncio é perturbador e cresce,
alguns se atrevem, projetam a voz,
o som do metal os atinge.
os anjos caem no abismo.
o silêncio se faz novamente
no seio rebelde dos anjos.
na mente maldosa da gente
se faz a necessidade de cantar.
se faz também a guerra e a morte,
feito pra nós e por nós
pois é nossa culpa.
se faz o caos
se faz a caneta
se faz a poesia
tudo se funde num mesmo impasse.
no fim
tudo passa.
passa o homem
passa o rio
passa o pai.
fica o tempo
e sua transitoriedade.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Eu sou seu messias.
Atracado no cais do porto da ilusão
saio do meu barco de papel e caminho pela água.
no fundo, garrafas vazias, pneus, e sapatos.
cadáveres de fetos e sonhos quebrados.
bato a cinza, eu sou seu messias.
sinto na brisa fria do mar
o fantasma sem nome que assola esta geração.
preferia aqueles que uivavam,
aqueles que sofriam de dor e fome.
aqueles que nadavam no aquário da solidão
sem medo de afogar a alma e matar o corpo.
é complicado pra mim que bebo conhaque às 6 da manhã,
mas e para aqueles que escrevem versos frios
sobre putas caras e bourbon americano.
e as ilustram com fotografias do próprio quarto
revirado de soberba, e de livros burgueses,
e de cheiro de sexo.
são cães pastores correndo em círculos
num pasto morto, sem rebanho algum.
ensimesmados,
exalam seu preconceito pelas ruas da cidade.
colecionam bocetas brancas em seus celulares,
ilustram a vida como marginais
mas no espelho se enxergam elite.
são brancos, estão ricos e compram cocaína no meu bairro.
eu passo e cumprimento meus irmãos
a caminho do trabalho.
arranho seus carrões com os olhos.
as crianças me admiram caladas.
me sento na calçada vazia.
bato as cinzas. eu sou seu messias.
saio do meu barco de papel e caminho pela água.
no fundo, garrafas vazias, pneus, e sapatos.
cadáveres de fetos e sonhos quebrados.
bato a cinza, eu sou seu messias.
sinto na brisa fria do mar
o fantasma sem nome que assola esta geração.
preferia aqueles que uivavam,
aqueles que sofriam de dor e fome.
aqueles que nadavam no aquário da solidão
sem medo de afogar a alma e matar o corpo.
é complicado pra mim que bebo conhaque às 6 da manhã,
mas e para aqueles que escrevem versos frios
sobre putas caras e bourbon americano.
e as ilustram com fotografias do próprio quarto
revirado de soberba, e de livros burgueses,
e de cheiro de sexo.
são cães pastores correndo em círculos
num pasto morto, sem rebanho algum.
ensimesmados,
exalam seu preconceito pelas ruas da cidade.
colecionam bocetas brancas em seus celulares,
ilustram a vida como marginais
mas no espelho se enxergam elite.
são brancos, estão ricos e compram cocaína no meu bairro.
eu passo e cumprimento meus irmãos
a caminho do trabalho.
arranho seus carrões com os olhos.
as crianças me admiram caladas.
me sento na calçada vazia.
bato as cinzas. eu sou seu messias.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
13 de outubro
Quanto vale mais um ano?
rastejo pelo Centro
feito um rato
perseguindo
um caminhão de lixo.
pisco os olhos,
mas o perfume
- não o fedor -
do chorume
os mantém abertos.
meus braços
são duas bigornas,
meus ombros ancoram.
eu sou um zumbi.
nos galhos secos
de uma arvore qualquer
uma coruja morre
calada.
me vejo naqueles olhos
solitários e poderosos,
pedimos socorro
um para o outro,
ela me parte o peito
mas não consigo
fazê-la entender.
ela cai abatida.
eu saio voando.
prefiro os pobres,
os bêbados,
os sinceros.
prefiro os que
caminham
pro lado contrário.
nesses dias como o de hoje
a náusea é maior que a flor,
são dias de fezes, maus poemas e caminhões de lixo.
são dias de ratos e não de corujas,
da primavera que não desabrocha,
são dias de outubro e de chumbo
e nenhuma flor romperá o asfalto.
rastejo pelo Centro
feito um rato
perseguindo
um caminhão de lixo.
pisco os olhos,
mas o perfume
- não o fedor -
do chorume
os mantém abertos.
meus braços
são duas bigornas,
meus ombros ancoram.
eu sou um zumbi.
nos galhos secos
de uma arvore qualquer
uma coruja morre
calada.
me vejo naqueles olhos
solitários e poderosos,
pedimos socorro
um para o outro,
ela me parte o peito
mas não consigo
fazê-la entender.
ela cai abatida.
eu saio voando.
prefiro os pobres,
os bêbados,
os sinceros.
prefiro os que
caminham
pro lado contrário.
nesses dias como o de hoje
a náusea é maior que a flor,
são dias de fezes, maus poemas e caminhões de lixo.
são dias de ratos e não de corujas,
da primavera que não desabrocha,
são dias de outubro e de chumbo
e nenhuma flor romperá o asfalto.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
sobre a vida x sobrevida
insone
no emaranhado
sem fim dos meus lençóis
feitos de urtiga,
sinto o sol aquecendo
lentamente
a madrugada,
a transformando
em manhã.
me inclino para
ver o horizonte prateado.
eu sinto a glória.
fiquei pensando:
- mas que grande bobagem
é a vida.
logo mais
estarei velho
amando mulheres jovens
e musicas antigas,
perdido naquelas políticas
corriqueiras,
bebendo um café
mais suave,
fumando cigarros
mais fortes -
talvez pensaria:
- que burro eu fui,
nisto e naquilo.
porquê não arrisquei
vez ou outra? -
mas não nasci
para a velhice
arrependida.
nasci pra cerveja
e pros acordes,
pros amores e pros versos,
pra breve vida,
e pra boa morte.
no emaranhado
sem fim dos meus lençóis
feitos de urtiga,
sinto o sol aquecendo
lentamente
a madrugada,
a transformando
em manhã.
me inclino para
ver o horizonte prateado.
eu sinto a glória.
fiquei pensando:
- mas que grande bobagem
é a vida.
logo mais
estarei velho
amando mulheres jovens
e musicas antigas,
perdido naquelas políticas
corriqueiras,
bebendo um café
mais suave,
fumando cigarros
mais fortes -
talvez pensaria:
- que burro eu fui,
nisto e naquilo.
porquê não arrisquei
vez ou outra? -
mas não nasci
para a velhice
arrependida.
nasci pra cerveja
e pros acordes,
pros amores e pros versos,
pra breve vida,
e pra boa morte.
sábado, 27 de setembro de 2014
Arrasta-pé pra caneta dançar
Esses corpos
se mexendo na penumbra
têm luz própria,
são vários sóis
que vão ondejando
no horizonte.
são peles de cores
e olhos brilhantes.
São bocas buliçosas
transbordando poesia.
belo chão sem poeira
pra levantar,
belo céu de noite escura,
sem estrelas.
e os fetos nos ventres livres
que ainda não vivem.
e os homens
domando motores ávidos pela luz verde
que já não podem.
e a senhoras, e as mocinhas,
os donos de bar, e as famílias
apinhadas na sala
à espera do drama
diário das nove,
à espera da morte.
estes nunca saberão
que eu me encontro inebriado
de dança e de álcool.
se mexendo na penumbra
têm luz própria,
são vários sóis
que vão ondejando
no horizonte.
são peles de cores
e olhos brilhantes.
São bocas buliçosas
transbordando poesia.
belo chão sem poeira
pra levantar,
belo céu de noite escura,
sem estrelas.
e os fetos nos ventres livres
que ainda não vivem.
e os homens
domando motores ávidos pela luz verde
que já não podem.
e a senhoras, e as mocinhas,
os donos de bar, e as famílias
apinhadas na sala
à espera do drama
diário das nove,
à espera da morte.
estes nunca saberão
que eu me encontro inebriado
de dança e de álcool.
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