sábado, 27 de setembro de 2014

Arrasta-pé pra caneta dançar

Esses corpos
se mexendo na penumbra
têm luz própria,
são vários sóis
que vão ondejando
no horizonte.
são peles de cores
e olhos brilhantes.
São bocas buliçosas
transbordando poesia.

belo chão sem poeira
pra levantar,
belo céu de noite escura,
sem estrelas.

e os fetos nos ventres livres
que ainda não vivem.
e os homens
domando motores ávidos pela luz verde
que já não podem.
e a senhoras, e as mocinhas,
os donos de bar, e as famílias
apinhadas na sala
à espera do drama
diário das nove,
à espera da morte.

estes nunca saberão
que eu me encontro inebriado
de dança e de álcool.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Ela tem o gosto do fogo


Ela diz
que meus versos
a deixam molhada,
bate a cinza e me costura o peito,
me joga na lona
com esses olhos macios de prata.

ela é tudo o que
um homem bêbado quer.
sentada no parapeito da janela,
ofegante,
ela sopra a fumaça
e abre as pernas.

Eu fico louco,
mas aos vinte e três
ainda não me precipito
num "eu te amo"
molhado de gozo

ela me mata toda vez
mas me quer vivo.
me retiro de dentro dela
exausto, cansado e murcho

porém,
ela continua
a incendiar meu quarto.

Essa mulher
é o demônio,
ou é um anjo,
ela é deus
na sua melhor
encarnação.

ela é jasmim e scotch
ela tem o gosto do fogo.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O inferno, na verdade, somos nós.


A sola dos meu pés
anda queimando neste asfalto
mais que o necessário
pra eu sentir os pés no chão.

um dia desses
vocês vão me encontrar
pelado, falando ao telefone
e caindo aos pedaços
sem poder ouvi-los,
é nessas horas que
esconder as provas
faz sentido,
já que suas palavras
e suas balas
nunca voltam atrás.

ando bebendo mais do que
meu corpo jovem aguenta,
ando fumando os piores cigarros
e embarcando
nas piores viagens.
ando sonhando com a volta
de gente que não volta mais,
e perdendo a fé na ida
pro inferno onde eles se encontram,

o inferno, na verdade,
somos nós.
não os outros
e suas vidas
miseráveis.
me desculpe,
Schopenhauer.

se nós queremos matar uns aos outros,
Thomas Hobbes,
porque eu quero aqueles sorrisos de volta?

você é um imbecil imoral,
eu sou um animal sentimental.

sábado, 13 de setembro de 2014

Auto-retrato

No fundo da minha mente
há águas turvas,
é lá que busco a inspiração.
no fundo dos meus olhos
refletidos nesse espelho
de água e tinta,
vejo o mundo em fundo preto,
inebriado e em desespero
quero resgatar meu coração
deste lago de existência
aparentemente inexplicável,
por isso ponho fogo
no papel e na caneta,
na aquarela e no pincel,
e as cinzas que me sobram
brilham como prata e poesia,
e a fumaça que enturvece
minhas paredes é metafísica.

meu auto-retrato não é automático,
não tem luz artificial pra iluminar
o semblante hediondo
da minh'alma indecorosa.
eu sou feio porque sou
e isso é belo.

eu sou belo, e sei
porque minha pele,
e meus lábios grossos,
e minhas palavras duras,
e meus olhos de aquarela
me constroem.


Agradecimento a Carol Nascimento pela ilustração e inspiração.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Do alto das colinas do Cruzeiro

Dois mil e catorze:
o ano em que todos 
os meus enlatados vencem,
o ano em que a violência 
deixou de ser fascinante,
mesmo sem ter olhado
nestes teus olhos de chumbo.

me sinto cansado 
e ainda é setembro,
digo assim como se 
ao fim do ano
eu pudesse me deitar
e deixar esse fedor no passado.

ela está te matando,
cegando seus olhos, 
matando sua astúcia,
e amanhã fará seu estômago doer.
eu te vejo bêbado, doente,
empobrecido, meu amigo.
seu espírito não é mais livre, 
nem seu corpo.

eu te traí e te abandonei.
por isso agora, numa conta difícil,
tento subtrair este poema ruim
da minha culpa.
eu tive medo e tirei a mão, 
mas por mim você quis 
queimar e queimar.

e agora?
você foi onde tudo é nada
e me olha suplicando
enquanto vejo tua vida
se diluir e descer pelo ralo.
Espero te abraçar pela manhã
e olhar do alto das colinas do Cruzeiro
como nos velhos tempos,
só pra ver esta cidade cinza acordar.

mas essa noite eu canto sozinho
já que ainda é setembro
e pouco importa se logo mais é primavera.
não deixe parar
esta batida quebrada
do seu coração.
pois foi num desses ritmos 
de tempos fracos que você me disse:
"eu atirei no sheriff"

 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Aguardente

Agradecido,
morro em seus olhos
enquanto você me liberta
tragando minha liberdade.
eu sou um lixo sentimental,
eu sei que sou, mas confiante
nos teus olhos vermelhos
eu persevero
mais que devia.

Jogo a fumaça pro alto,
enquanto tua boca
de hálito doce-ardente
mastiga meu juízo
como a aguardente faz.

Feche essas pernas
ou não termino este samba,
largo esse bojo de madeira
que tenho grudado no peito,
largo a canção pela metade,
largo meu orgulho no chão,
e te beijo nos pequenos lábios
que me encaram úmidos
em meio aos pêlos
que crescem selvagens em volta.

caralho,
eu te amo.
maldição,
eu te amo!
você não presta,
mas eu te amo.

Mulher ingrata!

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Ao tocar Cartola

Eu nasci negro
de pele e de íris
com o cheiro da noite.
eu nasci frágil
de olhos tristes
morrendo de medo,
cresci nesse mundo
de pai, mãe
e exagero,
me criei no seio da rua
no brilho da lua
no desespero.
vivi pros acordes em quinta,
pras guitarras vermelhas
distorcidas,
pra esse rock
uivado pra lua.
pro vento frio
que me espanca
a pele nua.
depois de vinte e poucos anos
dessa noite com
gosto de chumbo,
à madrugada no auge
do inverno vejo
que a melhor coisa
que me aconteceu nesse mundo
foi o samba.
este samba que
me ferve o sangue nas veias,
me faz mexer as cadeiras,
que faz meu pesado violão flutuar.
nestas cordas de aço
sinto a extensão
do meu corpo,
nestes suaves acordes
a extensão da minh'alma,
mas é cantando
e olhando teus olhos, mulher
que sinto a calma.
ao terminar a canção
te pego pela mão,
corro e olho o céu
como o poeta mandava
te beijo a boca em minha mente
e desintegro esta sala.

sábado, 23 de agosto de 2014

Pras rosas que não falam

Hoje eu nasci pra poesia
Não me amole
Não me solte
Pois eu vou
Talvez não volte

Hoje eu nasci pro violão
Pras rosas que não falam
Não me aplauda
Não me pare
E que esse samba
Nunca acabe.


terça-feira, 29 de julho de 2014

Incendiando o terceiro bar



Senti saudades
mandei mensagens
mas que se foda
você não tá nem aí
vou sair pela noite
porque tá frio, e o frio
me congela os pensamentos
que me levam pra você
entro no primeiro bar
e a primeira coisa que faço
É pedir um conhaque
bebo tudo de uma vez
e ponho fogo no lugar

saio batido
no vento frio
não pago a conta
preciso congelar
você de novo aí dentro
tenho fogo no estomago
e brasa queimando tabaco
entre o indicador e o médio
da mão direita
na mão esquerda
o peito em cacos
no reflexo dos olhos
uma garrafa de rum
em cima do balcão

peço tudo e bebo metade
meia hora depois
o lugar está em chamas
incendiei o segundo bar
pego meu casaco
e corro na chuva
tá frio pra caralho
e a chuva só piora
você morre de hipotermia
pela segunda vez hoje

as luzes brilham demais
e eu estou ensopado
a cidade se retira
mas são só dez da noite
no bolso do casaco noto
o maço de cigarro encharcado
preciso fumar - penso comigo.
vinte metros a frente
o anuncio na vitrine
me avisa que a noite
ta acabando
na minha mente
você risca o fósforo
meu coração começa
a bombear o combustível
muito rápido
atrás do balcão
alguém me vende um Derby
procuro o esqueiro
mas você
já incendiou o terceiro bar.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Poema do C.A.

Não havia fogo
mas havia fumaça
enquanto o álcool
aquecia, a vida passava
no ambiente estéril
a poesia se faz sozinha
na luz branca da sala
a escuridão
da noite nos guia.

Nos sentimos livres dentro
de nós mesmos
lá fora papeis e canetas
mentiras veladas
em quadros negros
aqui dentro garrafas viradas
e corações batendo
poesia na parede
poetas crescendo

ao redor da mesa
políticos, professores
matemáticos, historiadores
Bons senhores, boas senhoras

incompreendidos
se compreendendo
por horas e horas.