terça-feira, 16 de setembro de 2014

O inferno, na verdade, somos nós.


A sola dos meu pés
anda queimando neste asfalto
mais que o necessário
pra eu sentir os pés no chão.

um dia desses
vocês vão me encontrar
pelado, falando ao telefone
e caindo aos pedaços
sem poder ouvi-los,
é nessas horas que
esconder as provas
faz sentido,
já que suas palavras
e suas balas
nunca voltam atrás.

ando bebendo mais do que
meu corpo jovem aguenta,
ando fumando os piores cigarros
e embarcando
nas piores viagens.
ando sonhando com a volta
de gente que não volta mais,
e perdendo a fé na ida
pro inferno onde eles se encontram,

o inferno, na verdade,
somos nós.
não os outros
e suas vidas
miseráveis.
me desculpe,
Schopenhauer.

se nós queremos matar uns aos outros,
Thomas Hobbes,
porque eu quero aqueles sorrisos de volta?

você é um imbecil imoral,
eu sou um animal sentimental.

sábado, 13 de setembro de 2014

Auto-retrato

No fundo da minha mente
há águas turvas,
é lá que busco a inspiração.
no fundo dos meus olhos
refletidos nesse espelho
de água e tinta,
vejo o mundo em fundo preto,
inebriado e em desespero
quero resgatar meu coração
deste lago de existência
aparentemente inexplicável,
por isso ponho fogo
no papel e na caneta,
na aquarela e no pincel,
e as cinzas que me sobram
brilham como prata e poesia,
e a fumaça que enturvece
minhas paredes é metafísica.

meu auto-retrato não é automático,
não tem luz artificial pra iluminar
o semblante hediondo
da minh'alma indecorosa.
eu sou feio porque sou
e isso é belo.

eu sou belo, e sei
porque minha pele,
e meus lábios grossos,
e minhas palavras duras,
e meus olhos de aquarela
me constroem.


Agradecimento a Carol Nascimento pela ilustração e inspiração.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Do alto das colinas do Cruzeiro

Dois mil e catorze:
o ano em que todos 
os meus enlatados vencem,
o ano em que a violência 
deixou de ser fascinante,
mesmo sem ter olhado
nestes teus olhos de chumbo.

me sinto cansado 
e ainda é setembro,
digo assim como se 
ao fim do ano
eu pudesse me deitar
e deixar esse fedor no passado.

ela está te matando,
cegando seus olhos, 
matando sua astúcia,
e amanhã fará seu estômago doer.
eu te vejo bêbado, doente,
empobrecido, meu amigo.
seu espírito não é mais livre, 
nem seu corpo.

eu te traí e te abandonei.
por isso agora, numa conta difícil,
tento subtrair este poema ruim
da minha culpa.
eu tive medo e tirei a mão, 
mas por mim você quis 
queimar e queimar.

e agora?
você foi onde tudo é nada
e me olha suplicando
enquanto vejo tua vida
se diluir e descer pelo ralo.
Espero te abraçar pela manhã
e olhar do alto das colinas do Cruzeiro
como nos velhos tempos,
só pra ver esta cidade cinza acordar.

mas essa noite eu canto sozinho
já que ainda é setembro
e pouco importa se logo mais é primavera.
não deixe parar
esta batida quebrada
do seu coração.
pois foi num desses ritmos 
de tempos fracos que você me disse:
"eu atirei no sheriff"

 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Aguardente

Agradecido,
morro em seus olhos
enquanto você me liberta
tragando minha liberdade.
eu sou um lixo sentimental,
eu sei que sou, mas confiante
nos teus olhos vermelhos
eu persevero
mais que devia.

Jogo a fumaça pro alto,
enquanto tua boca
de hálito doce-ardente
mastiga meu juízo
como a aguardente faz.

Feche essas pernas
ou não termino este samba,
largo esse bojo de madeira
que tenho grudado no peito,
largo a canção pela metade,
largo meu orgulho no chão,
e te beijo nos pequenos lábios
que me encaram úmidos
em meio aos pêlos
que crescem selvagens em volta.

caralho,
eu te amo.
maldição,
eu te amo!
você não presta,
mas eu te amo.

Mulher ingrata!

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Ao tocar Cartola

Eu nasci negro
de pele e de íris
com o cheiro da noite.
eu nasci frágil
de olhos tristes
morrendo de medo,
cresci nesse mundo
de pai, mãe
e exagero,
me criei no seio da rua
no brilho da lua
no desespero.
vivi pros acordes em quinta,
pras guitarras vermelhas
distorcidas,
pra esse rock
uivado pra lua.
pro vento frio
que me espanca
a pele nua.
depois de vinte e poucos anos
dessa noite com
gosto de chumbo,
à madrugada no auge
do inverno vejo
que a melhor coisa
que me aconteceu nesse mundo
foi o samba.
este samba que
me ferve o sangue nas veias,
me faz mexer as cadeiras,
que faz meu pesado violão flutuar.
nestas cordas de aço
sinto a extensão
do meu corpo,
nestes suaves acordes
a extensão da minh'alma,
mas é cantando
e olhando teus olhos, mulher
que sinto a calma.
ao terminar a canção
te pego pela mão,
corro e olho o céu
como o poeta mandava
te beijo a boca em minha mente
e desintegro esta sala.

sábado, 23 de agosto de 2014

Pras rosas que não falam

Hoje eu nasci pra poesia
Não me amole
Não me solte
Pois eu vou
Talvez não volte

Hoje eu nasci pro violão
Pras rosas que não falam
Não me aplauda
Não me pare
E que esse samba
Nunca acabe.


terça-feira, 29 de julho de 2014

Incendiando o terceiro bar



Senti saudades
mandei mensagens
mas que se foda
você não tá nem aí
vou sair pela noite
porque tá frio, e o frio
me congela os pensamentos
que me levam pra você
entro no primeiro bar
e a primeira coisa que faço
É pedir um conhaque
bebo tudo de uma vez
e ponho fogo no lugar

saio batido
no vento frio
não pago a conta
preciso congelar
você de novo aí dentro
tenho fogo no estomago
e brasa queimando tabaco
entre o indicador e o médio
da mão direita
na mão esquerda
o peito em cacos
no reflexo dos olhos
uma garrafa de rum
em cima do balcão

peço tudo e bebo metade
meia hora depois
o lugar está em chamas
incendiei o segundo bar
pego meu casaco
e corro na chuva
tá frio pra caralho
e a chuva só piora
você morre de hipotermia
pela segunda vez hoje

as luzes brilham demais
e eu estou ensopado
a cidade se retira
mas são só dez da noite
no bolso do casaco noto
o maço de cigarro encharcado
preciso fumar - penso comigo.
vinte metros a frente
o anuncio na vitrine
me avisa que a noite
ta acabando
na minha mente
você risca o fósforo
meu coração começa
a bombear o combustível
muito rápido
atrás do balcão
alguém me vende um Derby
procuro o esqueiro
mas você
já incendiou o terceiro bar.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Poema do C.A.

Não havia fogo
mas havia fumaça
enquanto o álcool
aquecia, a vida passava
no ambiente estéril
a poesia se faz sozinha
na luz branca da sala
a escuridão
da noite nos guia.

Nos sentimos livres dentro
de nós mesmos
lá fora papeis e canetas
mentiras veladas
em quadros negros
aqui dentro garrafas viradas
e corações batendo
poesia na parede
poetas crescendo

ao redor da mesa
políticos, professores
matemáticos, historiadores
Bons senhores, boas senhoras

incompreendidos
se compreendendo
por horas e horas.

A guerra e a caça



Um breve devaneio:

"A guerra e a caça
não fazem sentido
sem a morte,
a própria morte
não faz sentido sem a vida,
E as vezes a vida
simplesmente 
não faz sentido.

Pode ser que a caça seja a vida
e a guerra seja a morte
Pois se na caça
a vida justifica a morte
na guerra 
a possibilidade da morte
Dá sentido a vida"

Mas tanto faz.

Outra vez
no mesmo sofá encardido,
com o mesmo
vinho seco barato,
o mesmo maço de cigarros,
um filme qualquer passando no mudo,
pessoas sem voz.

Todo dia essa porra
Tô cansado disso
Vou me entorpecer e
adormecer confortavelmente.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Por um dia azul universal que nunca acabe

Dias azuis precedem nuvens negras
Dias cinza nada querem dizer

O motor avança alto na avenida
Ao seu lado o progresso azul
A opulência, o arrojo
Os muros altos azuis
As paredes e as luzes através das janelas
Os vestidos das senhoritas
Os carrinhos de bebê
Até as calçadas, as árvores, os olhos
Dia azul, tudo azul.

A esquina funciona feito vírgula
Ou como o vento que trás as nuvens
Que tiram a graça do pique-nique
Que matam o sentido do riso.

A segunda parte da avenida
É um grande “porém” a primeira,

Do outro lado um rosto enrugado
Uma tempestade nos olhos
Obstinadamente frágil
A pele rija de frio é a pele negra
Suja de suor e poeira
Impregnada de si mesma
Em meio ao lixo cata latas
Velha, pobre, ostracionada
Nuvens negras, tudo escuro.

Eu meio a isso estou eu
Como deveria estar?
Com o pensamento em meu destino
Em meu progresso
Planejando um belo dia azul que nunca acabe
Eu deveria estar cinza
Mas não estou
Dias cinza nada têm a dizer.