sábado, 1 de junho de 2013

Soneto dos pobres de espírito

É sábado e não espero nada
Não escuto passos na calçada
Não deixo a porta destrancada
Não olho a esquina da sacada

Deixo-me à brisa que me envolve
A noite fria me dissolve
Neste céu negro minh'alma é densa
Mas pouco intensa, de carisma pobre

Me faço ouvir num leve soneto
Pra ver se aqueço olhares de cobre
Mas em minha missão não há nada de nobre

Lhes faço sorrir numa breve anedota
Na manhã seguinte bato em suas portas
E lhes quebro o sorriso com minhas derrotas.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Não diga Amém (parte II)


Entre na forma suja da semente do seu pai
Você, fruto do coito e da carne
Agora dorme num ventre vadio qualquer
Nasça na forma suja, humana, errante
Semelhante a própria semelhança
Cresça num lar de amor
É lindo ser o motivo pelo qual eles ainda não se mataram,

Papai x Mamãe

Vá para a escola, suba na escada do sucesso
Pise em alguns no caminho
Tire todos do seu caminho
Mas não se esqueça de ir a igreja aos domingos
Deus não gosta quando você não pede perdão
Mesmo quando vai fazer tudo de novo

Peque um pouco,
Sofra um pouco,
Morra um pouco,
Como é bom ser jovem!

Tenha um emprego que lhe sobre tempo e dinheiro
Para engordar como um porco
Bebendo cerveja na frente da TV
Case-se com a loira mais bela,
Mas tenha um caso com a ruiva,
Quem sabe um bastardo com a negra?
Trate todas como carne
Assada. Comida.

Compre uma casa,
Compre um carro,
Compre uma arma,
Ou faça uma com o carro depois da cerveja

Uma arma para si mesmo.

E se eu fosse o diabo?
E se eu fosse Deus?
E se eu fosse você?
Metade do homem que eu costumava ser.
Metade do erro que eu vou cometer
Metade das coisas que eu quero ter

Ser o que ter!?

E se eu fosse um bom rei
Morando em um pequeno castelo triste
No reino mais pobre que existe.

Não pobre de ouro,
Pobre de gente.

E que Deus não seja louvado nos rodapés da moeda desse reino
Mas que a deusa pagã da revolução
Nos sorria na beleza desta nota
Santificado seja o teu nome
Você que não é santo nenhum
Mas tem o nome de um santo qualquer.

A corrupção da ignorância é inocente
Abençoado seja o que rouba sem ver,
O que mata sem ouvir,
E o que morre sem gritar.

Abençoado seja o deus dinheiro
Que compra todas as coisas
materiais ou imaterias
Que podem ser vistas ou não
Para todo sempre.
Não diga amém!

Vocábulos, rascunhos, retalhos

POESIA:
O partido político dos homens tristes.
Por ela estou a me manifestar de novo.
Queria mais,
queria um violão amigo para assassinar os sublimes acordes de uma triste canção.
Mas tenho pouco,
Tão pouco o quanto preciso:
Linhas tortas, palavras mortas e lágrimas.

A vida é uma cachoeira, meu rosto é um rio
E só hoje não dormirei bem
Eu peço que conte todas as estrelas do seu céu
Para ter certeza de que a minha estrela se apagou
No meu céu você ainda irradia seu amor
No meu céu você ainda é o sol.

Começo milhões de poemas sem terminar nenhum
Um para cada tentativa,
Um para cada suspiro meu.
Minha vida é mesmo feita de rascunhos,
Retalhos de sorrisos, pétalas de flores secas,
gritos que não saíram da garganta.

Palavras,
as amigas que odeio
Por serem as mais sinceras
Por estarem sempre aqui
São as mesmas que me ocorrem agora
Elas nunca vão embora.




terça-feira, 12 de março de 2013

A canção da solidão

E se tiveres um dia
Centenas de amigos híbridos
Sem cor, Sem religião
Sem coração como tu és
Ainda assim se encontrarias
Na mais completa solidão algumas vezes

Pois a única semelhança entre nós
É que a solidão nos habita nas diferenças
E nos afeta estando perto
Nos faz chorar estando longe

E se em algum dia qualquer
Ao escrever a tua hagiografia
O hagiógrafo esquecesse dias como o de hoje?
Dias no deserto da própria alma
Num jejum e tentação imensuráveis
Dias que só tu viveste e não contara a ninguém
Agradece hoje que não há hagiógrafo nem caneta
E que não és santo algum
E nem mesmo está morto
Porém o deserto da alma está lá
Ele existe para santos e pecadores

Pois quem nunca pensou
Em cantar uma canção
Num dia de profunda solidão
Só pra ver se alguém canta junto.

Eu sou a ponte

Eu sou a ponte. Eu sou o cabo que alimenta a realidade de motivos para viver, o mundo de motivos para não acabar. Eu sou o aparelho que transmite a beleza em sua forma mais pura, o amor em sua forma mais leve, a dor em sua forma mais grave.
Eu estou para os românticos como para os céticos estão os cientistas. Espalhando verdades estranhas para quem quiser acreditar.
Eu vivo num tempo distante de um mundo que nunca existiu, mas que muita gente vai visitar. Uns pela beleza, outros pela doçura, pelo torpor, pela ilusão que habita o lugar... Ícaro falou do seu céu e hoje é considerado louco. Camões e Pessoa devanearam por suas ruas, cambalearam pelas calçadas. E alimentaram mentes como as nossas desse torpor.
Poetas loucos. Loucos poetas.
Eu sou um rio que transborda, a arte me fez assim, inundando de palavras que eu não sei de onde vem. Eu sou um rio que não sei pra onde vou. Um mensageiro de mensagens sem remetentes que vem para pessoas que eu não sei quem são e que nunca vão me encontrar em lugar ou tempo algum.
A poesia é o caos transcrito pela caneta, polido pelo poeta. Não há poesia sem caos. Não há poesia sem que algo brigue em mim para existir. O ódio, o amor, a dor e a verdade tomando forma material. A matéria tomando forma sentimental. A forma elementar da vida humana. 
Eu sou a ponte!

sábado, 12 de janeiro de 2013

Não diga amém!

A garota facilitou o meu viver
Sorriu quando tinha de sorrir
Falou quando tinha de falar
Não regou as flores de plástico que eu lhe dei
E disse que elas não vivem
Só para eu dizer que também não morrem

Tocou na minha barba jovem e negra
E foi embora.

Eu fiquei pois aqui se passa mais do que fica
E a solidão do ficar
É infinitamente maior/melhor que a "vaziez" do passar..

Apenas passar, não indagar e ser feliz!
Apenas ficar, pensar e não sorrir.

Todo mundo tem direito a felicidade?
Eu preferi me esvaziar de ignorância
Todo mundo que escolhe não escolher
Não escolhe a maldição que eu escolhi.

A ignorância é uma benção
Não diga amém!




quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A cor púrpura

A noite era púrpura quando a beleza se desfez
Meu sorriso era cheio de verdade
Meus insultos eram parte da amizade
E até se eu te fizesse mal, era "púrpura" bondade

A cor púrpura e o mistério da bondade.
É como o bailar de uma bailarina no escuro
Sussurrando em um ouvido surdo
Palavras do amor mais cruel

Dê-me o céu
Mas pode ficar com as estrelas
Eu quero apenas a cor e o amor
Deixo para você a beleza

A beleza é o que passa!

Por trás de um véu de fumaça
A cor purpura se manterá
"O poeta está vivo" - ele sempre estará


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Tudo o que ainda pode ser


Tudo o que ainda pode ser
é o que me pega e me arrasta,
me faz olhar para onde não conheço.
E eu que só queria um recomeço.
Reconheço que você apertou minha "tecla start"

Já está bem tarde,

e eu continuo a rir,
de palavras que eu nem posso ouvir.
Imaginando os sorrisos que me dizes
Sonhamos juntos momentos felizes

E tudo o que ainda pode ser
Se manifesta em linhas curtas
aqui nesse papel imaginário as escuras.
À luz da lua, ao som da rua, à brisa pura.
A poesia que eu te dou é uma mistura
Do que há de mais simples numa noite de dezembro,
com os meus desejos, meus pensamentos...

Venha compartilhar os sentidos,
venha fazer da fantasia realidade
confeccionaremos verdades,
escrevendo histórias que eles nunca lerão
sobre sorrisos frouxos em um infinito verão

Enquanto begônias exalam perfume e beleza eu proponho
Venha com esse ar risonho
Me toque com os olhos, compartilhe seus sonhos.

sábado, 24 de novembro de 2012

Confusão e poesia

Uma levada me leva pra longe no jazz
Grafites nos papéis, histórias na parede
Um cigarro, uma gaita, uma rede
E as ideias indo e vindo no inconsciente
Sigo consciente do vento que me brisa e me conserva
No espelho observo, reflito e verbalizo o "Ser poeta":
Uma metralhadora humana
Alvejando multidões,
Com versos e flores calando seus canhões

Acho que sou um rei num castelo triste
Ou o profeta mais perdido que existe
Uma criança que põe o dedo médio em riste
Ignora a ignorância desse mundo e resiste.

Alguns abrem o coração
Outros abrem a mente
Eu abro um buraco negro no chão e enterro as minhas correntes
Planto minhas sementes, rego com o que tenho dito
Minhas palavras têm pés, têm asas e sorrisos

O que sou eu além de canalizador do dom?
O que sou além de amplificador do som?

Entro e saio desse caos de Antônios e Antônias
Planto capsulas de fuzil, mas colho begônias

Sou o caos por trás da caneta
E estou perdido em mim mesmo
Nos meus versos me olho nos olhos sem usar espelho
Quero viver em confusão e poesia com alguém
Até que o papel se rasgue e as palavras digam amém.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Sozinho; Junto...

Um cigarro queimando entre os dedos
Um comichão queimando no peito
Na camiseta o velho Chaplin desbotado
Falando de plateias e palhaços

Tudo a minha volta cheira
A olhos molhados e poeira
E tudo aqui dentro escorre pra fora
Tudo lá fora me olha.

O sofá cochicha com a estante
A cadeira rangendo a todo instante
A janela sussurra uma brisa fria pela sala
Meu violão envergonhado, se cala

Eu não me espanto,
Não falo, não olho, não me levanto
Ouço a memória de seus pés tocando a escada
E prossigo nestas linhas sobre nada.

Ponderando os caprichos do egoísmo
Uma formiga em queda-livre num abismo
Sua falta vem ter comigo esta noite
A mais bela visita de hoje.