sábado, 27 de outubro de 2012

Sorria e finja a demência



Amanhã vamos todos morrer,
Outra vez,
Lentamente.

Como sempre, morreremos nesse evento bienal
Vítimas da banalidade visceral
Dessa democracia unilateral

Não há representação democrática,
Há sim uma
Democracia representativa
Que não pode me representar

Dança passiva
Peça lasciva
A cada ato nos seduz
A apagar a luz
E caminhar na escuridão da ignorância

E você que percebe?
Viva de aparência
Abdique a própria essência
Sorria e finja a demência

Perdi minha decência
Pela sobrevivencia selvagem
Não faço parte da própria sociedade
Não quero mais ser este personagem.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Quem é você?

Você que me olha e não vê
Você que me vê e não repara
Você que me repara para julgar
Você que me julga sem perguntar
Você que pergunta, mas não escuta.
Você que escuta, mas não pensa.
Você que pensa, mas não age.

Você que se perde no turbilhão de acontecimentos da humanidade. Um anônimo numa das esquinas sem nome do mundo. Separado, junto... Solitário na solidão da multidão. Vitima do bater de asas de uma borboleta no Japão.

Você que já foi Vossa Mercê, vosmecê
E agora não sabe quem vai ser
(Quem sabe só 'cê'?)

Você que tropeça na solução
Mas só encontra problema

Você precisa parar de me olhar e se ver.
Afinal,
Quem é você?

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Uma constelação de estrelas cadentes

[...] E algumas vezes, no ultimo clarão da noite, ela abria os olhos e olhava pelo buraco no vidro da janela de madeira apodrecida e empoeirada. Fisgava um pedaço da lua, às vezes uma nuvem esfumaçada e via as estrelas imaginando as coisas que um dia ela teria amado se tivesse mais tempo. 
Tentava lembrar como era o amor, tentava um distante vislumbre do rosto da mãe ou da barba do pai roçando-lhe a testa. Mas sempre que estavam próximas estas lembranças se escondiam em uma cortina densa de fumaça, um cigarro logo era batido por um punho de ferro. E quando a fumaça se dissipava eram olhos de fogo que lhe sorriam triunfantemente, uma boca com um hálito fétido de cebola e cigarros salivava sobre seu corpo, doentia, mastigando seus sonhos e engolindo seu coração.
Nessa hora àquela dor entre as coxas se intensificava, - quase insuportável - as lágrimas inundavam seus olhos e ela perguntava quem era Deus e porque ela merecia aquilo - pensamentos inocentes demais para um adulto e pesados demais para uma criança -. Ali chorava por horas, até que o dia lhe sorrisse ironicamente e a luz fustigasse seus olhos ressecados, ela os fechava e esperava que o sono lhe tirasse para dançar.
Entre um pulo assustado para fora de um pesadelo e um suspiro dolorido e silencioso ela sonhava com o céu da noite anterior. No sonho ela sentava no colo do pai e contava as estrelas do céu, inventando nomes para todas que ela não conhecia. Ele sempre ia embora no final, e ela sempre se desesperava quando se via sozinha naquele céu negro. As estrelas despencavam aos montes e apagavam a luz. Seu coração apertava e ela acordava sem ar, tendo a certeza que aquelas estrelas que caiam eram seus sonhos de sobreviver àqueles dias.
Sonhos quebrados. Uma constelação de estrelas cadentes. 

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Prólogo de Linhas no escuro (parte 1)

Linhas no escuro (parte um)
Garoa fina na orla, fria, densa e cortante. Havia histórias agonizando no meio fio enlameado, e ideias livres pela memória. Se esbarrando. Se misturando.
Sem caneta.
Sem papel.

Uma tarde era pouca para tantos sentimentos. E tantos não caberiam em uma semana normal. Eu precisava contar uma história que eu não gostaria de saber. Sobre, dentre outras coisas.

Uma criança.
Uma fazenda em que chovia o ano inteiro.
Um homem com olhos de fogo.
Uma porção de livros com selo da biblioteca da cidade.

Um golpe repentino de má sorte e em um segundo você começa a cair em desgraça. É assim que funciona. É sempre assim que começa. Uma risada descontrolada no banco traseiro, um sol amarelo e triunfante em um céu azul e nuvens de seda. De repente um louco, um suicida. O asfalto rabiscado pelos pneus desesperados. Gritos de mamãe. Gritos de papai. Gritos de menina. Os pneus. Três sulcos na terra quente. Gritos de menina de novo. E depois. Nada.

Um suicídio.
Dois homicídios.
É assim começa e é assim que vai acabar. Não necessariamente na mesma ordem.

Um suicida em pedaços distribuídos irregularmente pela estrada. E o carro como um animal ferido, com as quatro patas para cima, tossindo num canto esburacado da estrada. Uma desgraça iniciando outra desgraça. Uma longa risada para iniciar um calvário. Eu me pergunto porquê é sempre assim? A única resposta que me deram foi:

“A vida é irônica. Quando menos se espera ela acaba” - de uma menina de quatorze anos com um coração de sessenta.

Ela é Ágata Belina, essas são as “Linhas no escuro”.

Prólogo de Linhas no escuro (parte 2)


As confissões do Sonhador

A tarde continuava cinzenta, a garoa caia como um chuvisco de televisão no horizonte. Bob Dylan, café e cigarros e nada ainda fazia sentido. Quem eu havia me tornado? Eu riria da minha cara se me visse assim há um ano. De ladrão de casas a doador de livros. Muito havia mudado desde quando nas primeiras horas da madrugada ela entrava no meu quarto, e me entregava uma história. Uma versão que ninguém conhecia do conto mais triste, e cruel, e bonito que eu já ouvi falar. Quando me lembro desse dia sempre vejo a imagem dela na beira da minha cama de costas para mim, a vela queimando o quarto inteiro, a sombra de uma cadeira flutuando na parede e as palavras sendo entregues a mim em forma de punhais que ela mesma forjava e distribuía.

E depois um pedido, uma súplica. Eu não pude negar. E mesmo se não prometesse não seria capaz fazer de novo. Uma menina de quatorze anos me fez confessar o que nem 4 horas de interrogatório conseguiram. Eu era sim um ladrão, e eu já quase havia matado alguém. De repente soluços, ela não estava chorando. Não ela não chora. Eram meus.

...

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Estilhaços de verbo

Meu peito apertou quando você não disse
Quando você sumiu e na sua ausência eu te senti presente
Você levou meia frase mordida
A outra metade eu ainda mastigava, tinha gosto de ferro
E oxidava depressa.

Meu coração foi esmagado pelos próprios batimentos
Minha mão esquerda tremeu
Eu sorri um sorriso epilético e sussurrei: preciso escrever

Você que volte aqui,
Te direi as melhores que eu tiver
Antes mesmo que as suas mentiras caiam nos meus pés
Mortas, inúteis e ridículas
Falsas como são as mentiras perante a verdade

Eu cuspirei o resto da frase no seu rosto
E ela vai te agarrar pelo pescoço
E vai esbofetar seu coração
Isso se você voltar, e quando voltar

Enquanto isso algumas palavras oxidam na minha boca
Algumas ideias fervem no meu peito
São coisas que não vou dizer
Momentos que não vão acontecer.


terça-feira, 31 de julho de 2012

No que você está pensando?

Eu sou cibernético e sentimental
Vivo de histórias que nunca vivi
De coisas que nunca vi
No meu sonho de solidão e metal

Viajo o mundo inteiro dentro do meu quarto
Mas não notei a nova borboleta no meu jardim
Vivo num limbo entre o meio e o fim
Esquecido por mim mesmo, no meio de um fardo

As canções já não fazem mais sentido
E as lições que eu tenho aprendido
Têm me "logado" ao mundo real

A vida é mais que câmeras te filmando por aí
É mais que gente te vigiando por aqui
Para que você siga sendo normal

Nem sempre faça o que esperam de você
Nem sempre ligue a tevê

Nem sempre responda
Quando seu computador estiver perguntando:
"No que você está pensando?"

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Pra sempre

E mesmo que um abraço se desfaça
E o sorriso desapareça do seu rosto
Mesmo que eu te sinta amarga
E perca o controle numa das curvas do seu corpo

Mesmo que o sol não nasça para você
Mesmo céu desabe em seus ombros
E você perca a fé, a luz e o ar
E adormeça sob seus próprios escombros

Nos meus olhos fechados você sempre irá viver
E no meu coração cansado você sempre irá correr
E mesmo que meu corpo doente descanse eternamente
Você ainda terá minha mente, pra sempre...

Pra sempre!



quarta-feira, 4 de julho de 2012

Mergulhados nesse absurdo


Quando eu saí do seu mundo
Depois de tanto tempo, corri
Acelerei durante vários minutos
Sem olhar o caminho
Entrando em ruas que eu sempre quis conhecer
E em todas as esquinas encontrando você

Com os olhos colados no chão
Vi que as marcas das minhas lágrimas já estavam lá
E as pisava, vermelhas como meus olhos
Com cheiro do meu sangue
Guiando meu caminho.


Mais que palavras foi o que você me deu
E eu, não vi que as verdades
Se amontoaram nos cantos da casa
Prontas para serem descobertas
Cobertas de poeira numa próxima faxina sentimental


Eu digo 'e se', você diz que é 'só'
Me mergulhei nesse absurdo e sobrevivo
Faço votos verdadeiros que eu não gostaria de fazer
O poeta perdeu sua musa quando as estrelas caíram do céu
Eu perdi meu sorriso, quando meu céu caiu sobre mim



segunda-feira, 25 de junho de 2012

3 acordes


Por que eu vivo de rimas
E não sei cantar livre
Me prendo sempre em analogias
Em frases quase infelizes

Trazendo sempre um peso
Em tudo o que eu posso descrever
E hoje tudo o que eu vejo
É o que eu não consegui ser

Vou devagar 
Destruo alguns versos no caminho
Me pego num clichê sozinho
Usual, trivial e pegajoso

Me vejo agarrado a 3 acordes
Limpos, conformáveis, confortáveis
Refrão-verso-refrão
Tenho nojo

Mas quando a lua uivar para você
Eu serei o garoto solitário de sempre
Eternamente mastigando a verdade
Cantando canções sobre saudade