quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Prólogo de Linhas no escuro (parte 2)


As confissões do Sonhador

A tarde continuava cinzenta, a garoa caia como um chuvisco de televisão no horizonte. Bob Dylan, café e cigarros e nada ainda fazia sentido. Quem eu havia me tornado? Eu riria da minha cara se me visse assim há um ano. De ladrão de casas a doador de livros. Muito havia mudado desde quando nas primeiras horas da madrugada ela entrava no meu quarto, e me entregava uma história. Uma versão que ninguém conhecia do conto mais triste, e cruel, e bonito que eu já ouvi falar. Quando me lembro desse dia sempre vejo a imagem dela na beira da minha cama de costas para mim, a vela queimando o quarto inteiro, a sombra de uma cadeira flutuando na parede e as palavras sendo entregues a mim em forma de punhais que ela mesma forjava e distribuía.

E depois um pedido, uma súplica. Eu não pude negar. E mesmo se não prometesse não seria capaz fazer de novo. Uma menina de quatorze anos me fez confessar o que nem 4 horas de interrogatório conseguiram. Eu era sim um ladrão, e eu já quase havia matado alguém. De repente soluços, ela não estava chorando. Não ela não chora. Eram meus.

...

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Estilhaços de verbo

Meu peito apertou quando você não disse
Quando você sumiu e na sua ausência eu te senti presente
Você levou meia frase mordida
A outra metade eu ainda mastigava, tinha gosto de ferro
E oxidava depressa.

Meu coração foi esmagado pelos próprios batimentos
Minha mão esquerda tremeu
Eu sorri um sorriso epilético e sussurrei: preciso escrever

Você que volte aqui,
Te direi as melhores que eu tiver
Antes mesmo que as suas mentiras caiam nos meus pés
Mortas, inúteis e ridículas
Falsas como são as mentiras perante a verdade

Eu cuspirei o resto da frase no seu rosto
E ela vai te agarrar pelo pescoço
E vai esbofetar seu coração
Isso se você voltar, e quando voltar

Enquanto isso algumas palavras oxidam na minha boca
Algumas ideias fervem no meu peito
São coisas que não vou dizer
Momentos que não vão acontecer.


terça-feira, 31 de julho de 2012

No que você está pensando?

Eu sou cibernético e sentimental
Vivo de histórias que nunca vivi
De coisas que nunca vi
No meu sonho de solidão e metal

Viajo o mundo inteiro dentro do meu quarto
Mas não notei a nova borboleta no meu jardim
Vivo num limbo entre o meio e o fim
Esquecido por mim mesmo, no meio de um fardo

As canções já não fazem mais sentido
E as lições que eu tenho aprendido
Têm me "logado" ao mundo real

A vida é mais que câmeras te filmando por aí
É mais que gente te vigiando por aqui
Para que você siga sendo normal

Nem sempre faça o que esperam de você
Nem sempre ligue a tevê

Nem sempre responda
Quando seu computador estiver perguntando:
"No que você está pensando?"

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Pra sempre

E mesmo que um abraço se desfaça
E o sorriso desapareça do seu rosto
Mesmo que eu te sinta amarga
E perca o controle numa das curvas do seu corpo

Mesmo que o sol não nasça para você
Mesmo céu desabe em seus ombros
E você perca a fé, a luz e o ar
E adormeça sob seus próprios escombros

Nos meus olhos fechados você sempre irá viver
E no meu coração cansado você sempre irá correr
E mesmo que meu corpo doente descanse eternamente
Você ainda terá minha mente, pra sempre...

Pra sempre!



quarta-feira, 4 de julho de 2012

Mergulhados nesse absurdo


Quando eu saí do seu mundo
Depois de tanto tempo, corri
Acelerei durante vários minutos
Sem olhar o caminho
Entrando em ruas que eu sempre quis conhecer
E em todas as esquinas encontrando você

Com os olhos colados no chão
Vi que as marcas das minhas lágrimas já estavam lá
E as pisava, vermelhas como meus olhos
Com cheiro do meu sangue
Guiando meu caminho.


Mais que palavras foi o que você me deu
E eu, não vi que as verdades
Se amontoaram nos cantos da casa
Prontas para serem descobertas
Cobertas de poeira numa próxima faxina sentimental


Eu digo 'e se', você diz que é 'só'
Me mergulhei nesse absurdo e sobrevivo
Faço votos verdadeiros que eu não gostaria de fazer
O poeta perdeu sua musa quando as estrelas caíram do céu
Eu perdi meu sorriso, quando meu céu caiu sobre mim



segunda-feira, 25 de junho de 2012

3 acordes


Por que eu vivo de rimas
E não sei cantar livre
Me prendo sempre em analogias
Em frases quase infelizes

Trazendo sempre um peso
Em tudo o que eu posso descrever
E hoje tudo o que eu vejo
É o que eu não consegui ser

Vou devagar 
Destruo alguns versos no caminho
Me pego num clichê sozinho
Usual, trivial e pegajoso

Me vejo agarrado a 3 acordes
Limpos, conformáveis, confortáveis
Refrão-verso-refrão
Tenho nojo

Mas quando a lua uivar para você
Eu serei o garoto solitário de sempre
Eternamente mastigando a verdade
Cantando canções sobre saudade

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Nas sarjetas da Central (a miséria da poesia)

Que poesia há na sarjeta?
Das calçadas que você brota
Ao jardim em que floresce
Há muitas respostas entre mendigos e transeuntes

Nas sarjetas da Central do Brasil
Eu sou o lixo, eu sou a sombra, eu sou o pó
Eu sou a verdade que ninguém quis ver
No seu subconsciente eu sou você

Olhando para cima você nunca me verá
Pois no chão que você pisa eu deito
Mas saiba que o ciclo não termina em você
E que minha miséria, um dia, atingirá seu peito.



terça-feira, 19 de junho de 2012

Castanho

São tão grandes, tão curiosos,
Tão escuros, porém tão verdadeiros
Como um par de jóias raras,
Brilhantes e inquebráveis
Às vezes confusos, esguios,
Às vezes fiéis , fixos
Sempre intensos!

Me corta o coração vê-los molhados
E eu, que já os vi encharcados...
De dor e de saudade
Também já os vi quentes,
Flamejantes de amor ou de ódio
É um pecado deixa-los fechados

Como uma tempestade
Vêm e invade minha alma
Queimando-a por inteiro
Queimando-me vivo

Quando vai embora
O sol vai junto
Minha mente desliza por aí
Seus olhos já não olham para mim.


Atrás de você


O ambiente é quente
Como uma usina à vapor
As silhuetas dançam no horizonte
Onde você se esconde?

Durma bem,
Viva bem
Veja flores onde estiver
Ó meu bem!

Ao menos agora você pode ser você
Viva bem, é só querer
E agora sem você todos os dias
Nascer, dormir, morrer...

Abra os olhos e não me veja
Eu fecho os olhos e te canto
Parece tão perto mas já faz tanto tempo
Eu lamento, palheto forte, desencanto

Tire o seu jeans de baixo do seu allstar
E continue a caminhar
Indestrutível, irredutível
Impossível de amar

Viva bem
Eu bem sobrevivo
Durma bem,
Ó meu bem!

















terça-feira, 29 de maio de 2012

A vida é simples na lua

É, você estava tão certa
A vida é tão simples na lua
Longe dessa superfície burocrática
Cheia de tolos e pobres

Eu sei, cratera
Você é tão vazia quanto ela

Sim, você estava certa
A Terra já não é tão bela
Vista da lua, entre a poeira e fumaça
Legiões de miseráveis livres

Eles já nem olham para o céu
seus fantasmas já olham nos seus olhos

Não falta-lhes comida
Não falta-lhes dinheiro
Falta-lhes coração
Falta-lhes fé

Somos ativos de um genocídio inconsciente
Somos vítimas dos próprios preconceitos
O fantasma que nos assola não tem armas
Não tem pés, não tem mãos, não tem língua

Nós temos TV
Nós temos um Estado democrático e livre
Nós podemos comprar o que quiser se tivermos dinheiro
Nós temos o direito
Mas nós nem sabemos direito...

Então por que a Lua é tão mais bela?

O que nos faz feliz é o que nos aprisiona
A nossa riqueza pisa em alguns cadáveres
Nossa sublime inversão de valores

A vida é simples na lua, sim
É isso que a noite tem a dizer.